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Crônicas

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Episódio 4 - Neurose Capilar

:: O Sofá

O rosto ainda amassado pela noite entre os lençóis denunciavam meu estado sonolento, a caneca de café preto quente na mão ainda tentava me despertar para mais um dia em que a preguiça tomava conta do meu ser. Sou daquele tipo de pessoa que acorda aos pouquinhos. Nem tente falar comigo, será em vão! Concordo com tudo o que é dito para que o assunto se encerre, assim, meu ritual matinal quase sagrado pode continuar - ficar sentado no sofá vislumbrando o nada, de frente para minha parede cor de palha, com um copo de café na mão até que meu cérebro mande um sms para o meu corpo avisando que está na hora de fazer meu login e me conectar à vida.

:: A Porta

Ding dong! Ding dong! Ding dong! “Campainha tocando a esta hora da manhã, é cobrança ou problema ou o síndico reclamando da festa de ontem! Mas peraí, não teve festa no Buraco ontem!” Fazer o que? Levantei e abri a porta!

:: Quem? Como? Onde?

Sabe aquele olhar mudo, seguido de um sorriso de felicidade que só uma mulher entende o por que? Pois foi assim que encontrei Carol do outro lado da porta, com aquele semblante indagador, do tipo que está esperando que notasse algo que nós homens cromatologicamente somos incapazes de notar. Então, ficamos ali olhando um para o outro sem falar nada e eu com medo de sua reação, sabia dentro de mim que esperava que falasse algo! Fazer o que? Falei!

- Oi Carol, como você está linda! – Saída estratégica pela direita!
- E aí, gostou? – Perguntou ela.
- Vem cá, não está meio cedo para o nosso jantar? – Saída estratégica pela esquerda!

Foi o suficiente para Carol cair em lamúrias reclamando que eu não havia notado seu novo corte de cabelo. Sem ao menos desejar um bom dia, foi logo entrando e me deixando com a porta na mão.

:: O Surto

– Vocês homens são todos iguais! Nunca reparam em nós mulheres!
– Desculpe, mas o que você fez no cabelo? Parece igual pra mim!
– Eu cortei uma franja! Tá na moda, sabia?
– E onde está essa franja?
– Aqui, escondida! – disse mostrando a franja – É que eu ainda não me acostumei com ela.
– Isso não é uma franja, está mais pra um pega rapaz!

Tem horas que a sinceridade atrapalha, pra que fui abrir a boca? Minha calma manhã nunca mais seria a mesma, e nem poderia imaginar o que viria pela frente. Mas que aquela franja parecia o pega rapaz do super-homem, isso parecia! Para os que não sabem, imaginem uma mecha na forma de uma vírgula chapada na testa! Ui...

:: Compartilhando a Neura

Agora que o estrago estava feito, o jeito era acalmá-la e tentar convencê-la de voltar ao salão e assumir de vez uma franja em sua vida. Era óbvio que aquele projeto de franja não ia dar cria e virar um franjão no futuro. Num passe de mágica, aquilo que antes era parte integrante de Carol tinha virado um ser independente, que não fazia parte do seu corpo, um inimigo íntimo. Agora, minha missão era tentar com que ela voltasse a ser amiga do seu próprio cabelo. Tarefa praticamente impossível para um simples homem.

:: A Tentativa

Carol prendeu o cabelo fazendo um rabo de cavalo, escondeu a franja e fomos caminhando juntos até o salão, mas não sem antes parar em todas as vitrines no caminho, não para olhar pela enésima vez aquela roupa que tanto queria, mas para conquistar os segundos necessários para retocar o cabelo pra lá e pra cá tentando esconder aquilo que seria uma franja.

Depois de algumas revistas antigas lidas e alguns cafezinhos, eis que surge Carol e seu franjão. Gato escaldado tem medo de água fria! Então, fui logo abrindo meu sorriso mais confiante, imaginando a Gisele Bündchen desfilando no corredor, linda e maravilhosa vindo em minha direção. Fazer o que? Tem horas que fingir é a melhor saída!

:: O Surto 2

- Eu odeio meu cabelo! – esbravejou Carol.
- Mas... mas... sua franja está linda!
- Viu! Você gaguejou... está falando isso só pra me agradar!
- Quem, eu? Longe de mim tal ideia... – e fui logo interrompido.
- Vamos almoçar, depois te mostro o estrago quando chegarmos no Buraco.

:: Compartilhando a Neura 2

Seguimos caminhando a passos largos em direção ao Fifties, no shopping Leblon, com várias paradas nas mesmas vitrines pelas quais passamos. Tentando amenizar a situação, eu e minha língua resolvemos fazer um elogio. Fazer o que? Tentei!

- Você está um charme, sabia? Esse coque com esses dois fiapos de cabelo caindo pelo seu rosto emoldurado por esse lindo óculos Rayban, uau! Você está a própria bonequinha de luxo!

Carol baixou o óculos o suficiente para me lançar um olhar fulminante, seguido de uma rosnadinha típica de um sinal que a TPM estava por chegar e disse:

- Preciso estar feliz com ele!

Ele quem meu Deus? Agora o cabelo virou uma entidade que se apossou desta pequena mulher e não a deixa em paz, perturbando sua mente, seu humor e indiretamente minha paz naquele dia. “Ela bem que podia passar uma máquina zero logo nessa cabeleira, estilo Sinead O’Connor, e começar a cantar – Nothing compares to you”  - Melhor eu ficar calado!
- Você disse alguma coisa?
- Não Carolzinha do meu coração, só estava pensando.
- Pensando besteira, aposto!

:: A Tentativa 2

Se a palavra é prata, o silêncio é ouro, frase de Facebook! Melhor me ater as batatinhas e ao meu hambúrguer, e desviar o assunto parecia, digo, parecia ser o melhor caminho...

- Tá calado, né! Não gostou do meu cabelo! Diz logo! Anda, esse seu silêncio está me matando!
- Posso comer agora e comentar depois? – Ainda tentando fugir do assunto.
- Claro que não! Como você pode sentir fome comigo neste estado?
- Mas foi você quem me convidou para almoçar...
- Ora bolas Ricardo, não mude de assunto!
- Ok! Você venceu, batata frita? – Oferecendo uma batatinha a ela.
- Hã???
- Nada, só tentando distrair um pouco! Vou falar, mas você não vai acreditar mesmo... sua franja está LINDA!

Realmente eu gostei, mas como convencer uma mulher? Alguém sabe? A essa altura o cachorro quente que Carol pediu e apenas deu duas mordidas já tinha esfriado. E ela leva as mãos aos cabelos desfazendo o seu coque, deixando o cabelo cair nos ombros, em seguida pega o porta guardanapo de inox e usa como espelho tentando arrumar o cabelo.

:: O Surto 3

- Estou parecendo uma criança renascida dos anos oitenta, só falta a saia preta com renda e sair cantando “like a virgin” pelo shopping!
- Posso até entender sua revolta se eu me olhasse nessa latinha distorcida, eu sairia correndo para um cirurgião plástico!
- Isso mesmo! Você é um gênio, não posso mais ficar assim, preciso fazer alguma coisa, pague a conta aí, por favor! Depois te encontro no Buraco.

Fazer o que? Paguei a conta enquanto assistia Carol sair em disparada, com destino incerto em atitude duvidosa. Agora não sabia se ela estava querendo mudar de cabelo ou de vida. Parece que tomou seu próprio cabelo como refém de sua insatisfação e eu aqui contando os fios que ainda me restam.

:: O Sofá 2

Minha parede cor de palha, meu sofá, um filme passando na TV acompanhado de uma coca-zero com muito gelo, enfim, paz e tranquilidade no Buraco. Certo? Que nada, a ingrata não atende o celular! Sei lá o que aquela maluca está fazendo! Mulher quando coloca uma coisa na cabeça nem pai de santo tira e quando se trata de Carol, bem, prefiro nem comentar. Puxei meu pufe verdinho, coloquei debaixo das pernas e continuei a assistir o meu filme. Fazer o que? O que o homem mais faz quando tem uma mulher no meio, esperar...

:: A Porta 2

Ding dong! Ding dong! Ding dong! “Campainha tocando na melhor parte do filme, e eu sei quem está do lado de fora. Ai meu Deus, será que estou preparado para isso? Bem... pelo menos ela está viva” – Fazer o que? Levantei!

- Quem é? A Carol ou o Cabelo? – Abri a Porta.

:: Quem? Como? Onde? 2?

Sabe aquele olhar mudo, seguido de um olhar carente acentuado com um suave levantar de sobrancelhas que só uma mulher sabe dar? Pois foi assim que encontrei Carol do outro lado da porta, esperando que eu entendesse aquela mensagem que ela telepaticamente estava tentando me falar, mas que nós homens somos cromatologicamente incapazes de decifrar. Então, ficamos ali olhando um para o outro sem falar nada, e eu quase em desespero tentando adivinhar o que ela tinha feito de novo no cabelo, que parecia igualzinho a antes, mas três horas se passaram e ela esperava que falasse algo! Fazer o que? Falei!

- Oi Carol, como você está linda! – Saída estratégica por cima!
- Me poupe! De novo não, já vi que você não notou!
- Bem... bem... A franja... está partida no meio, isso?
- Caraca! Como você é insensível!

:: O Surto 4

- Estou arrasada! Minha vida esta desmoronando na sua frente e você nem nota!
- Eu juro que estou tentando entender, mas tá cada vez mais complicado! O que aconteceu? Aonde você foi? Por que não atendeu o celular?
- Eu voltei no salão, resolvi seguir a sugestão da Rosane, mas a emenda saiu pior que o soneto. Agora vou ter que emagrecer!
- Mas sua franja ficou linda partida no meio! - “ Tadinha, surtou de vez! O que emagrecer tem a ver com isso? ”

Carol se joga no sofá com pesar e me olha sem falar nada, aumentando ainda mais minha perplexidade. Minha cara de “não tô entendo nada” era nítida, o que fez Carol lentamente levar a mão aos cabelos presos, soltando-os e revelando seu segredo.

– Agora além de ter que viver com essa franja horrorosa, ainda ganhei um chanel! Eu falei pra ela que era só pra cortar dois dedinhos!

:: Compartilhando a Neura 3

Eu já tinha desistido de entender a razão de emagrecer, até porque se Carol perder três quilos ela se encaixaria na classe das anoréxicas. “ Tentar levantar o astral é a única saída, ou ela surta de vez”.

- Mas ficou tão bonitinho!
- Bonitinho??? É isso o que você tem pra me dizer?
- É, né! Ficou legal! – “Pronto! Agora me enrosquei de vez!”
- LEGAL??? – Já devem imaginar a cara dela a esta altura.
- Se eu falasse que ficou linda, você iria acreditar?
- O que espero de um amigo é que pelo menos ele seja honesto, ao contrário, você fica aí me olhando com essa cara de que estou horrível!

:: A Tentativa 3

“Tá bom, mandei mal, eu assumo! Vamos tentar outra estratégia” – Olha só, ninguém fica legal quando sai do cabeleireiro, demora uns dias para o cabelo ficar bom, todo mundo sabe disso! Além do mais, você precisa dar um tempo pra se acostumar com esse novo visual, aos poucos vai arrumando uma maneira de deixar o seu cabelo de um jeitinho que você se sinta feliz.

:: O Surto 5

- Escuta uma coisa, primeiro: Eu não fui em um salão para ficar dias esperando meu cabelo “ficar legal”! Segundo: Eu não quero me acostumar com esse “novo visual”, porque eu simplesmente NÃO gostei dele! E “jeitinho”, eu vou já dizer o que você vai fazer com esse jeitinho!
- Já tomou banho hoje?
- Hã? E você já tomou no...
- Calminha, calminha! Senta aqui do meu ladinho. – Carol sentou. – Agora dá aqui a patinha.

:: Quem? Como? Onde? 3

Sabe aquele olhar meigo, carente e desarmado que só uma mulher sabe dar? – “Mas só aqui entre nós, aquele olhar de cachorro abandonado?” Pois foi assim que Carol ficou ao notar que a vida é melhor ser levada com humor. E sem que entendesse como, nem porque, os homens são cromatologicamente capazes de fazer uma mulher sorrir. Então, ficamos ali olhando um para o outro, rindo daquela situação. Fazer o que? Às vezes dá certo!

:: O Sofá 3

Tem horas que um sofá serve como um divã e a sessão terapia de Carol estava aberta. Seguindo meu conselho pedi a ela que tomasse um banho, depois, usasse a varinha mágica de uma mulher, o secador! E mudasse aquela aparência de Afghan hound deixando o cabelo mais volumoso. A cena se repetiu algumas vezes, Carol entrava e saía do banheiro com um cabelo diferente.

- Usei um creme sem enxague! O que achou?
- Adorei! Ficou ótimo!
- Que nada! Tô parecendo um Poodle!
- Usei um mousse para controlar o volume! O que achou?
- Ficou linda! Adorei a franja partida de lado!
- Tá horrível, agora pareço um Cocker Spaniel!
- Usei uma pomada para fios rebeldes! O que achou?
- Honestamente? Tá parecendo um Gremlin depois que caiu na água.
- Agora não usei nada! O que achou?
- Gostei! Agora você acertou, prefiro desse jeito meio bruxinha!
- Bruxinhaaa??? Você acha que alguma mulher gosta de parecer uma bruxinha?

E por fim senta com os cabelos molhados e uma cara triste, reclamando que sua vida estava acabada. Me abraça fortemente enquanto faço um carinho nos seus cabelos. – Não fica assim não mocinha... você é uma mulher linda! Por dentro e por fora... de encantar qualquer homem. "Acho que pintou um clima no ar..."

:: A Porta 3

Ding dong! Ding dong! Ding dong! “Mas que hora para tocar essa campainha!” Ding dong! Ding dong! Ding dong! – Tô indoooooo!

- Oi, Nicolle.
- Ahhhhhhh!!! Ameeeeeeeiiiii o seu cabelo! Ficou lindaaaaa!
- Você acha mesmo? – Responde Carol.

Nessa hora eu já deixei de existir!

- Claro! Ficou o máximo! Combinou muito com você!
- Mas você não acha que tá faltando alguma coisa?
- Que nada, tá ótimo! Vem aqui no banheiro que vou dar um UP nesse seu look!

:: Quem? Como? Onde? 4

Por quê? Não sei! E acho que nunca saberei, mas foram necessários apenas cinco minutinhos para Carol sair radiante e feliz do banheiro com seu novo look! Fazer o que? Sou apenas um homem.

- E aí meninas, posso pedir uma pizza?

:: FIM


Episódio 4 - Neurose Capilar Reviewed by Ricardo Leão on 11:05 PM Rating: 5

2 comentários:

  1. Muda o brinco?
    Muda o perfume?

    Muito bom gostei ... mais uma lugar para a alama aquecer...

    Obrigado

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  2. kkkk adorei, muito bom, um humor leve, sensível às diferenças li rápido querendo saber como ia terminar...nós mulheres nos entendemos afinal... kk

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