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Crônicas

Crônicas
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No Buraco dos outros - Manaus

- Destino: Terra da “ Mãe dos Deuses”
Assim os índios da tribo “Manaós” chamavam esse pedaço de terra situada na confluência dos rios Negro e Solimões. Quase quatros horas depois da decolagem, a movimentação dos poucos passageiros do avião despertou minha atenção. Ávidas cabecinhas enquadravam-se nas janelinhas do avião. Celulares e câmeras fotográficas nas mãos para registrar o que para muitos era um momento único, para outros como eu, nem tanto, afinal ali estava minha origem, a antiga “Paris dos trópicos”, minha terra natal, Manaus!
Debrucei-me sobre a janela para olhar aquele mar verde. Não tem como não se sentir pequeno, feito um “Carapanã” – o mosquito do amazonense – sobrevoando aquele imenso brócolis verde serpenteado por rios e lendas que construíram minha infância. Alguns minutos depois, touchdown! Aquela sensação de que o freio não vai funcionar e o avião não vai parar desaparece, e é logo substituída pela ânsia coletiva de sair daquele bólido. Fila para sair do avião, o carrinho - eu sempre escolho o que está com as rodas travando e claro, minhas malas nunca são sorteadas para aparecerem entre as primeiras a saírem na esteira, mas, enfim, Manaus! Como você sabe? Imagine a sensação de quando você abre a porta do forno de sua casa, é a mesma coisa que se sente ao sair pela porta do aeroporto. Calooooorrr! Dizem que só tem duas estações do ano por aqui, o verão e o inferno, mas a hora é de matar a saudade e a sede das coisas que você só encontra nessa terrinha!


- Matando a sede
Maninho que é maninho é movido a guaraná! Essa fruta típica da região tem poderes e crenças que circulam pelas “tabernas” – o mercadinho amazonense. Energético natural, o guaraná vira pó na escama do maior peixe de rio do mundo, o “pirarucu” – o bacalhau amazonense – e quando misturado com o xarope da própria fruta com limão, amendoim e castanha do Pará se transforma em um energético natural do tipo “levanta defunto”, capaz de deixar você ligadão madrugada a fora. Provavelmente todo mundo sabe ou ouviu falar das propriedades do guaraná por esse Brasil multicultural, mas você já conhece o Tauá, Regente, Real, Baré, Tuchaua ou Magistral? Não? Estas são apenas as marcas mais famosas dos refrigerantes a base de guaraná que circulam pelas mesas manauaras, ou você pensava que só existiam duas marcas no mercado? Para você que não conhece, prove todos! Meu favorito é o Baré, que acompanhado do pão de massa fina com manteiga da lata e espremido em uma frigideira bem quente, se transformava na “merenda” nossa de cada dia!



- Waku sese
Tá tudo bem! Assim falavam os índios da tribo Sateré-Maué. Esse é nome deste simpático restaurante tipicamente amazonense com uma estrutura simples, mas no caldeirão de sua cozinha você vai encontrar muito dos sabores que distinguem e encantam os que se atrevem a provar os famosos pratos exóticos existentes por aqui. A noite promete ser longa e calorosa, já que a proposta da viagem é matar a saudade, nada como uma tigela da – Fruta que chora, assim a chamavam os índios Tupis. Vulgo açaí, essa fruta hoje tem renome internacional e sabor inconfundível! Mas seu verdadeiro sabor talvez seja apenas compreendido se tomado aqui nos trópicos. Sei lá porque... talvez a mistura do calooooorrr!!! com as gotículas de suor que escorrem pela sua testa que ao entrarem em contraste com uma tigela de açaí bem gelaaaado acompanhada de um “shot” de leite condensado e farelos de tapioca, resultam em um prazer inenarrável, que ameniza o calor, sacia sua sede, sua fome e recarrega seu corpo com a energia da selva – o milk-shake do amazonense. O restaurante Waku sese é parada obrigatória para turistas e locais que estão à procura do verdadeiro sabor amazonense.


- All Night Pub
Hora de queimar as calorias da minha tigela de açaí, dançar é a pedida e a balada é meu convite. Sabe aquela amiga de uma vida inteira querendo te apresentar seus novos amigos? E lá estava eu em uma fila típica de boate, recheada de meninos e meninas segurando suas garrafas de “ices”, com adrenalina a 100% esperando a hora de azarar. Procurei a fila para idosos; nada! Procurei a entrada de VIPS; nada! É... o tempo passou, e não conhecia mais ninguém na fila. Agora eu era apenas mais um índio sem cocar na fila esperando para entrar na tecno-oca! Algum teeeeempo depois... Tuf! Tuf! Tuf!.. e mil pessoas comprimidas em cem metros quadrados pulando, dançando e claro, muito calooooorrr! Ao fundo uma bandinha tocava em um pequeno palco músicas que lembravam os tempo de outrora. “É..., nem tudo mudou tanto assim!” Hora do primeiro desafio em uma boate, comprar bebidas! O Bar está ali a poucos metros, mas certamente vou levar muito tempo para alcançar meu objetivo. Tentei traçar uma linha reta, afinal é em teoria o caminho mais curto entre dois pontos, mas em uma boate isto é impossível! Muitas curvas depois cheguei ao bar. Hora do desafio número dois, chamar a atenção do garçom! No meio de tantas mulheres bonitas esticando seus delgados e perfumados braços, não foi uma tarefa fácil, a competição era desigual! Você pode até dar a sorte de comprar uma cerveja gelada, mas quando volta ao seu lugar, ou ela já está quente ou pela metade, derramada por inúmeros esbarrões de dançarinos entusiasmados. O All Night Pub é o lugar do momento, toda turma jovem e bonita se espreme na casa que de “Pub” não tem nada. Animação garantida a noite toda, mas já são cinco da matina e preciso tirar um cochilo pois daqui a pouco é hora de reencontrar velhos amigos para almoçar.


- No Buraco da Eliége
Como você reconhece uma verdadeira amiga? Quando você a pega com uma vassoura na mão varrendo o quintal de casa, então ela te olha e aqueles vinte anos que nos separaram viram cinco minutos. Um abraço carinhoso, um olhar de saudade e já estava sentado no sofá jogando videogame com seu filho que acabara de conhecer, enquanto ela, como toda mulher, se arrumava para me receber. Sabe como você reconhece verdadeiros amigos? Eles falam que vão chegar tal hora e chegam duas horas depois, mas não por descaso, e sim porque arrumaram uma brecha no cotidiano de suas vidas para poder dar um abraço em um velho amigo. Prefiro nem contar as piadas e implicâncias que uma reunião destas causa, só posso contar que alguém ficou mais careca do que eu, e outro certo alguém tem mais cabelos brancos! E elas ? Sempre lindas e maravilhosas, afinal amigo é para essas coisas! Entre salgadinhos e anedotas, vivenciar que a verdadeira amizade não se esconde atrás das fronteiras do tempo é algo que não tem preço. Certamente um Buraco recheado de velhas saudades alimenta a alma e mata a sede causada pela distância de uma vida sem roteiro. Já com saudades, parti!


- Caindo no Porão
Toda história tem um lado B. Como na época do vinil e das velhas músicas de rock and roll que perpetuam pelo tempo ganhando novos adeptos a cada geração e acabaram digitalizadas em ipods e jogos eletrônicos do tipo “Guitar Hero”. Como a amiga de um vida inteira que nunca foi chegada a turma cabeluda e tatuada me convidou para conhecer seu local predileto, o “Porão do Alemão”. – Desde quando você curte heavy metal ? Pois é... cedo ou tarde toda história tem um lado B na vida, e não sei bem como, nem de que maneira, lá estava eu, “sob pressão” no meio de uma multidão gritando, pulando e balançando a cabeça involuntariamente a cada acorde mais pesado que a banda tocava. Frequentadores de carteirinha tem aquele lugar como um templo sagrado de sua diversão.

– Oi tudo bem? Cheio aqui né? – perguntei à amiga de cabelos vermelhos.
– Cheio? Que nada! Hoje a noite está light! – eu nem conseguia levantar os braços com medo de nunca mais conseguir abaixá-los.
– Como é o seu nome?
– Hã?
– COMO... É.... O... SEU... NOMEEEEEEE ? – tentei novamente!
– Ahhhh! É Bruuuuunaaaa!!!
– Bruna de que?
– Hã?
– BRUUU... NA... DE... QUEEEEEEE ?
– Ahhhh!... Porãoooo!... Bruna Porãoooo!!
– Muito prazeeerr! RI...CAR...DO...LE...ÃOOOO!!
– Hã?
– Nada não! Deixa pra lá!

O Buraco ou Porão do Alemão é definitivamente um lugar ímpar em Manaus, entupido de pessoas interessantes que vão lhe receber com o calooooorrr que só um amazonense sabe dar. Fica aqui a dica, compre logo na entrada um monte de fichas para trocar por cerveja no bar, pois depois é quase impossível conseguir sair do seu lugar por livre e espontânea vontade, apenas relaxe e deixe a multidão te levar, é inútil resistir! No mais é puro ROCK...AND...ROLLLLLL!!!



- Xis "Caboquinho"
Hã? Como? Onde fica mesmo? Fale mais alto um pouco, a noite de ontem me deixou um pouco surdo! Afinal ir a Manaus e não se deliciar em um café regional é como ir a Itália e não comer uma bela pasta! Meu final de semana estava acabando e não poderia voltar sem matar essa saudade, e onde mais você poderia comer um “xis caboquinho?”. Hã? Como? Calma... nada mais é do que pão na chapa recheado com queijo de coalho e “Tucumã!” Fruta típica da região de cor laranja e sabor raro, meio amargo e de difícil descrição, como quase tudo que é único por aqui. O Amazonas é certamente um local diferenciado de tudo que já vi. O cara lá de cima colocou um povo muito amistoso para morar aqui, paisagens deslumbrantes, encheu seus igarapés com peixes deliciosos, pendurou frutas de nome um tanto complicado, mas de sabor inexplicável em árvores que lambem o céu e temperou tudo isso com muito calooooorrr! Mas chega de papo, meu café tá esfriando e ainda tenho que comer minha tapioquinha, minha porção de pupunha, uma penca de bananas pacovã, feitas nas diversas formas: frita, assada e cozida. Tudo isso acompanhado de um copo de suco de cupuaçu, outro de graviola e por fim, um de taperebá! Ufa!... E ainda há tanto a comer, mas o melhor da viagem ainda está por vir, melhor eu me apressar. Ah! Onde fica mesmo? Existem cafés regionais espalhados por toda cidade, minha dica fica embaixo de duas enormes e frondosas mangueiras em um restaurante chamado Tapiri, que abre também aos domingos em sistema de self-service para você se lambuzar e ficar triste de tanto comer.


- Macaco na rede
Posso afirmar que caí na rede desde pequenino, o conforto e o vai e vem daquele pedaço de pano pendurado entre dois ganchos embalou muitos momentos da minha vida. A rede é a cama do amazonenses e ficar de papo pro ar balançando as ideias por horas é algo que realmente gosto de fazer, especialmente quando você está cercado pelas pessoas que mais ama, sua família! A saudade dos amigos, dos lugares por onde você cresceu, das comidas que há muito não comia servem de referência de uma vida e matam a sede de suas raízes, mas apenas o amor daqueles que ama são capazes de apagar a enorme saudade causada pelos dias distantes e acalentar a alma deste manauara comedor de farinha do Uarini com costela de Tambaqui – o peixe mais saboroso. Este era o almoço que me aguardava enquanto eu feito um macaco barrigudo me pendurava de um lado para o outro navegando pelas rede sociais do mundo virtual.

Hora de partir e voltar para o meu Buraco e a rotina dos meus sonhos. Claro que a saudade aperta o peito, mas a imagem que tenho na cabeça é de um sorriso, um sorriso largo aberto e acolhedor que sempre recebia os amigos com uma generosidade autêntica, distribuída gratuitamente aos que tiveram a sorte de serem iluminados com sua simpatia e alto astral. Alguém que fazia a vida parecer leve, e que nossos problemas eram mínimos frente a coragem com que driblava as dificuldades da vida. Saudades sim, da terra cheia de lendas que me serviu de berço, dos amigos de uma vida que por lá deixei e depois reencontrei, dos sabores, dos cheiros, da chuva no fim de tarde. Saudades que se transformam em felicidade a cada novo encontro. Saudades do amigo que partiu enquanto estive lá, deixando para mim um presente, um legado, de que a vida é feita de encontros e despedidas e a melhor maneira de recebê-los é sorrindo. O que não tenho saudades? Do calooooorrr!

Texto dedicado a Tabajara Teles de Menezes Neto. Pai e amigo!




No Buraco dos outros - Manaus Reviewed by Ricardo Leão on 12:47 PM Rating: 5

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