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Crônicas

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Três vezes amor

Ele estava ali, sentado naquele velho banco de madeira com suas ferragens corroídas pela maresia. Olhava distante aquela baía de águas esverdeadas e montanhas sombreadas pelas nuvens do céu. Fazia três anos a última vez que estivera lá, fazia três anos que não chegava tão perto do que amou tanto um dia. Sentia na brisa suave trazida pelo mar o afago que lhe acalentara durante as noites, escutava no leve quebrar das ondas as promessas de amor não concretizadas. As marcas das pegadas nas areias desapareceram deixando apenas as lembranças de uma vida que lentamente foi se escondendo diante de seus olhos, como o sol que agora se punha por detrás das montanhas, carregando consigo a escuridão, a ele só restava voltar no dia seguinte e poder sentir novamente no silêncio a presença de uma vida interrompida.

Ela estava ali, caminhando nas areias umedecidas pela maresia, em passos lentos deixava que a areia entremeasse seus dedos, reencontrava ali os grãos que por tantas vezes serviram de palco para as frases sussurradas ao amanhecer. Sentiu os primeiros raios de sol que aqueciam sua pele alva, trazendo o conforto e a segurança do abraço esquecido. Colocou a ponta dos pés na água gelada, um arrepio pelo corpo que há muito não sentia a fez agachar, pegou um pouco de água com as mãos, fechou os olhos e lentamente banhou seu rosto. Outro arrepio. Abriu os olhos e ao notar a beleza ao seu redor, sorriu, nunca se sentiu tão perto de algo que amara tanto um dia. Sentou naquele velho banco recheado de lembranças e por ali ficou por horas, vasculhando sentimentos entre uma onda e outra. As lágrimas foram acolhidas pela saudade que lhe apertavam o peito. Por hoje bastava, talvez o amanhã lhe trouxesse o conforto que procurava.

Ele estava ali, caminhando nas areias ao lado de algumas pegadas deixadas por alguém, seguindo os passos de uma vida que caminhara por lá, acreditando que encontraria um rumo para seguir adiante. Seguia as pegadas no compasso de sua emoção, passo a passo, lembrança a lembrança, lentamente foi se aproximando do velho banco de madeira e por lá se recostou. Não existiam nuvens para contar, nem uma leve brisa para embalar seus sonhos, apenas as águas tranquilas do mar que se refletiam em seus olhos, ofuscando o horizonte. Incomodado, levantou-se e caminhou até que o mar cobrisse seus pés, sentiu-se protegido naquele pequeno espaço de mundo. Olhou para os seus pés, agachou e pegou um punhado de água nas mãos, ao ficar em pé, as lágrimas foram se misturando com aquele pedaço de saudade e fluíram lentamente por entre seus dedos, retornando ao universo. A noite já se apresentava, talvez já não houvesse mais sentido em estar ali.

Ela estava ali, andando em cima dos passos deixados por alguém que seguira os seus passos, a solidão de seus caminhos agora pareciam ter um sentido, seguir em frente, passo a passo a levaria a seu destino. A incerteza do horizonte já não carregava seus medos, a incoerência de suas dúvidas já não permeavam seus pensamentos, a certeza de que poderia continuar a levariam para algum lugar. O mesmo velho banco de madeira, terminava ali sua jornada, de volta aonde tudo começou. Sentou-se a pensar. O céu estava coberto de nuvens, o sol se escondia atrás de seus pensamentos, não havia lágrimas a derramar, apenas uma brisa gélida no ar e seus sentimentos a flanar. Não importa que caminho tomar, acabarei sempre retornando a este lugar, porque amar não se desfaz com tempo, ele renasce a cada momento que sinto essa brisa me tocar. Ela sorri ao levantar, caminha para perto do mar e com os pés desenha um coração na areia e dentro escreve o nome do seu querer.

Ele estava ali, caminhando nas areias brancas banhadas pelo mar que apagara as pegadas de alguém, agora só lhe restava seguir suas próprias pegadas, acompanhado pela solidão fria de um entardecer. Uma última visita ao velho banco de madeira, uma última visita as lembranças de uma vida interrompida, antes de retornar para o caminho que a vida lhe oferecia, antes de retornar para si mesmo. Um olhar para o horizonte enevoado escondia as montanhas agora acinzentadas, as águas escuras da baía agora só traziam melancolia, estava na hora de levantar e caminhar. Um coração perto do mar com seu nome escrito, e seu coração começa a palpitar. Onde será que ela pode estar? O tempo não apaga o amar, agora só me resta escrever o nome do meu querer e acreditar que o destino vai trazer de volta aquele amor que não deveria acabar.

Ela esta ali, caminhando sobre as areias brancas e lisas, não existiam mais pegadas a seguir, o mar esta límpido, o céu azul, os primeiros raios de sol surgem por detrás das montanhas, iluminando aquele cenário único e especial. O velho banco de madeira com suas ferragens corroídas no mesmo lugar, a mesma imagem, como uma fotografia tirada há três anos, irretocável. Ela percebe que o banco está molhado. A chuva da noite anterior apagou tudo. Parece que a vida se encarrega de alguma maneira de apagar os rastros que deixamos pra trás, talvez o caminho seja aceitar que amanhã não adianta voltar, as pegadas irão desaparecer a cada dia chuvoso, mas sempre terei aqui nesse pequeno pedaço de nossa história o alimento para essa saudade que nunca deixarei de sentir.

Ele estava ali, andando apressadamente seguindo aquelas leves pegadas marcadas na areia, torcendo para que o seu querer estivesse à sua espera e que todas as palavras guardadas pelos anos pudessem ser ditas, mas a areia lisa sufocava sua esperança, o céu limpo e sem nuvens eram pela primeira vez um presságio de mau tempo. O banco velho de madeira estava vazio, ali apenas o barulho das ondas quebrando o silêncio habitual. Sentado de frente para o mar, seus pensamentos vagam pelas razões do destino que o levaram a chegar tão perto do amor de sua vida que levianamente escorreu como um sonho pelos seus dedos. A noite acobertava a solidão trazendo consigo a lua mais cheia dos últimos anos. Um sentimento de magia pairava no ar, hipnotizado ele não conseguia sair daquele banco, apenas admirava aquela visão surreal.

Ela estava ali, chegou suavemente como uma bruma colocando a mão em seu ombro, que lentamente olhou para trás e a reconheceu. Ela sentou-se ao seu lado e segurou sua mão. Ambos ficaram calados olhando para a lua por alguns minutos, até que ela virou e olhou para o seu rosto, pedindo que ele fizesse o mesmo. Lentamente ela se aproximou e lhe deu um beijo suave e coberto de amor em seus lábios. Ela disse que a vida é assim, no amanhecer procuramos a esperança para seguir adiante, no entardecer procuramos as respostas antes que a escuridão nos cegue. As vezes pra encontrar o verdadeiro amor é preciso fechar os olhos e escutar seu coração. Foi assim que te achei, olhei para a lua, fechei meus olhos e segui meu coração que me trouxe até aqui. Nunca importa a distância que você esteja de mim, meu amor sempre me levará a você e a ela também. Ele se aproxima lentamente e a beija. Ela levanta do banco, estende a mão para que ele segure e diz, vem comigo eu sei onde ela está.



Três vezes amor Reviewed by Ricardo Leão on 5:09 PM Rating: 5

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