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Crônicas

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A Caixa

Alguém me responde, quantas caixas você vai precisar se for mudar de casa? Acho que ninguém tem essa resposta. Se você já se mudou antes acha que sabe né? Sinto lhe informar, ledo engano! Um dos passatempos preferidos da humanidade e guardar coisas inúteis. E como deixar para trás aqueles itens ditos de estimação. Aquela blusa surrada que já não serve nem para pano de chão, mas não tem nada melhor pra dormir, e o tênis velho com a sola furada, mas que tem lugar cativo no fundo do armário e foi seu companheiro em longas caminhadas, sem falar naquele souvenir horroroso daquela viagem onde tudo deu errado. Alguns dizem que é apego, outros que é a dificuldade de se livrar do passado, outros chamam de lembranças. Mas quem de nós não tem uma caixa guardada com “bagulhos” que nunca usamos? Ou mesmo roupas no armário que são apenas objetos de decoração? E o tempo vai passando e o que nos pareciam objetos inestimáveis sucumbem ao tempo e acabam entrando no anonimato de nosso cotidiano. Sintomas da vida, diriam outros!

Mudar é encaixotar! E quando precisamos delas nunca as temos e quando temos nunca são suficientes. Encaixotar uma vida não é tarefa fácil, é como abrir um álbum de recordações, a cada coisa que você empacota uma lembrança é despertada. Com sorte conseguimos deixar as lembranças ruins para trás e só empacotarmos as boas. Será mesmo? Afinal a mudança carrega em si a vontade enorme de uma vida nova em seu novo cantinho recheado de sonhos e planos. Mas enfim tudo embalado, etiquetado, carimbado e a caminho. Inclusive aquela caixa de objetos inúteis!

Mudança feita, quase tudo arrumado e lá estavam elas, algumas caixas espalhadas pela casa, fechadas há algum tempo e logo você percebe que se realmente precisasse do que tem ali dentro, já as teriam desencaixotado. Deveriam ter ficado juntas com as outras coisas que julguei não precisar mais em minha vida. Mas todo mundo merece uma segunda chance. Então lá estava eu, tentando arrumar um lugar bem discreto para colocar as coisas que realmente não queria mais. Aquele vaso herdado pela mãe que já não tinha mais lugar na casa dela, mas que ia ficar lindo na minha casa, aquele horror de copos de requeijão que só por terem um desenho bonitinho eu não consigo me livrar, sem falar no monte de xícaras e pratos órfãos que tive pena de deixar pra trás. Pronto, nada como um domingo chuvoso pra colocar tudo escondido no seu devido lugar.

A vida segue, os planos certos se tornam incertos e os sonhos que eu consegui botar em prática não duraram mais que três meses. A sensação de que a mudança foi apenas física se torna a cada dia mais evidente. Será então que a mudança também deve passar pela atitude, pela quebra da rotina? Mas como encaixotar isso? E pra onde eu mando? Pro o universo? Alguém sabe o endereço? Partindo do princípio que existem dois mundos, o aqui de dentro e o mundo lá de fora, “o universo”, a única coisa lógica a fazer era talvez me reduzir, assim tudo o que estivesse ao me redor parecer maior e talvez assim eu conseguisse enxergar melhor o que me cerca e trazer realmente o que interessa e tem valor pra dentro.

Agora eram caixas vazias a espera de uma resposta. Eu consigo ou não viver sem você? Essa era a pergunta que me fazia para cada coisa que julgava de prioridade duvidosa. Depois de muitos, “não posso jogar isso fora”, notei que precisava de ajuda, alguém que retrucasse de lá, “você tem certeza?”, pois meu poder de argumentação comigo mesmo era inútil. Eu sempre sairia perdendo. Alguns dias depois, quase exausto, não pelo esforço e sim pela sensação de perda, outro monte de caixas estavam empilhadas e prontas para serem lançadas no universo e pra isso eu precisei de coragem e motivação, ou seja: “joga fora, doe, faz alguma coisa, mas eu não quero nem ver!”.

Uma a uma, as vezes em pares, minhas caixinhas foram tomando destinos diferentes. Uns nobres, como as roupas doadas que já não serviam, mas fizeram a alegria de uns tantos, ou aquela televisão que precisava apenas de um pequeno reparo que foi consertada e está servindo de entretenimento para uma família e outros nem tão nobres assim, foram pro lixo mesmo! O sentimento de estar mais leve era notório, a vida mais arejada, mais espaçosa. Televisores antes largos e pesados se tornaram finos e de fácil transporte, aquele horror de cabos que ligavam meu computador a inúmeros periféricos se transformaram em um notebook, livros de papéis agora eram eletrônicos, os tais “e-books”, os inúmeros cds foram convertidos em mp3 e agora cabiam no bolso, junto com a previsão do tempo, a máquina fotográfica e de quebra ainda podia fazer ligações telefônicas, além de receber e enviar e-mails e outras funções que ainda não descobri em meu celular. Minha vida agora se encaixava em um par de malas e alguns aparelhos eletrônicos cheios de botões para apertar. E sem fios!!!

Enfim a vida sem caixas! Será? E lá estava ela, a última caixa, guardada no cantinho da dispensa. Nem a mim se quer pertencia, não tinha a menor ideia das coisas que continham. Fora deixada ali com a promessa de que um dia qualquer eu a colocaria no correio e a enviaria para longe de mim. Alguns diziam que era preguiça, outros implicavam dizendo que era um pretexto, uma desculpa, outros afirmavam existir uma razão qualquer pra ela continuar ali. Quem sabe estava a espera de uma segunda chance. A verdade é que dentro daquela caixa continham mais do que lembranças, continham sentimentos! Bons e ruins, talvez a espera que o destino os fizessem melhor; amadurecidos. Quem sabe a espera de um domingo ensolarado onde enfim estes sentimentos se tornariam mais claros. Mas desta vez eu sabia exatamente o endereço e o nome do destinatário. Poderia até colocá-los em uma caixa nova, cheia de disfarces, crenças e ideologias, mas nada mudaria o seu conteúdo. Mas por quanto tempo consegue-se viver com os sentimentos dentro de uma caixa?

Segue o numero para você rastrear a caixa: PB345012713BR


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A Caixa Reviewed by Ricardo Leão on 5:02 PM Rating: 5

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