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Crônicas

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Web Book - Eu...Vc - Capítulo 8

Fernanda coloca lentamente o celular no console do carro, se mantendo em silêncio, seus pensamentos não estão ali, por uma fração de segundo a sensação de que em breve vai estar cara a cara com Beto a paralisa, uma mistura de ansiedade e medo do desconhecido a fazem pensar em desistir, de repente a idéia era de que tudo o que lhe estava acontecendo parecia errado, que estava por realizar a maior “loucura” da sua vida, sem ter a menor segurança do que iria encontrar pela frente. Não questionava o amor que sentia por ele, seu maior medo era de ser rejeitada. Não suportaria viver mais uma frustração amorosa, suas expectativas em relação aquele homem - que arrebatara seu amor com uma enorme intensidade - a faziam tremer  somente pela ideia de que aquilo poderia não sair como ela tanto desejava.

Aninha fica olhando para o relógio e em seguida para Fernanda que está com um olhar distante nem percebendo os movimentos um tanto exagerados da amiga e tenta de certa forma chamar sua atenção - se demorassem um pouco mais não chegariam a tempo de encontrar Beto na rodoviária. Lá pela quinta tentativa em que olhava para o relógio e para ela sem sucesso, resolve, então, interromper a “viagem” de Fernanda:

- Terra chamando Fernanda! Por favor, entre em contato urgente com a sua amiga que está sentada ao seu lado com uma cara de planta e faça a gentileza de explicar direitinho o que ela vai fazer em Treze Tílias com você! Além, claro, de segurar vela para o casal de pombinhos apaixonados?  Terra chamando Fernanda... Aloooo! O que está passando por essa cabeça maluquinha?  ANDA, ME CONTA LOGO!!! Grita Aninha.

Fernanda vira-se para Aninha que está visivelmente assustada, com um semblante tenso no rosto e fala com uma tranquilidade nada comum a ela:

- Amiga, eu vou desistir, não vou mais! Tá tudo errado!
- Pára de palhaçada! Estamos atrasadas, a estrada é péssima, cheia de buracos, nem dá pra correr, vamos mulher, anda com esse carro! – responde Aninha fazendo pouco caso para o que acabara de escutar.
- Eu tô falando sério, estou morrendo de medo! Isso não vai dar certo!
- Você tá falando sério mesmo? Quer desistir de conhecer o cara que passou os últimos vintes dias falando ser o homem da sua vida e que nunca tinha descoberto o amor verdadeiro até encontrar ele? Assim do nada... Por medo?!
- E se não der certo, e se ele não gostar de mim, o que eu vou fazer? Não suportaria tamanha decepção!
- Você eu não sei, mas eu sei o que vou fazer! Eu caso com você assumo seus filhos, te dou amor e prometo sexo selvagem todas as noites e seremos o primeiro casal de lésbicas assumidas da cidade!
- Não, não seremos não... Tem a Márcia e a Juliana, elas já estão até morando juntas! Responde a atônita Fernanda.
- Escuta uma coisa aqui “dona Fernanda”, você vai agora pisar nesse acelerador e dirigir até Treze Tílias, e lá vai encontrar o Beto, nem que seja para pedir perdão por ter feito ele de palhaço vindo até aqui e vai dizer que tudo foi um engano e que você na verdade não o ama! – Esbraveja Aninha, demonstrando estar muito chateada. E completa – Não estou reconhecendo você, pra não falar do meu desapontamento!
- Mas... Eu o amo muito... Sinto por ele algo que nunca senti por homem algum, mas como posso sentir isso se nem o conheço? Você não acha que esse sentimento todo é fruto da minha imaginação e talvez da minha carência? – lamenta Fernanda com uma voz triste e desanimada.

Aninha fixa a olhar em Fernanda, olhando seriamente dentro de seus olhos, não acreditando no que está acontecendo. Alguns segundos se seguem, nenhuma palavra é dita até que subitamente ela pega o celular de Fernanda e diz:

- Vou acabar logo com isso, vou ligar para o Beto e contar essa palhaçada toda!
- NÃOOOO! Não faça isso, por favor! – Suplica Fernanda.
- E por que eu não faria? Não é isso que você está disposta a fazer?
- É... Mas.... – Fernanda é logo interrompida for Aninha.
- Deu medo agora? Medo de perder ele? Medo deixar a oportunidade de uma vida feliz com o homem que você ama passar? 

Fernanda fica muda, sem resposta, sente o baque das palavras de Aninha, que continua a falar:

- Amiga você tem ideia de como é difícil encontrar alguém pra falar “eu te amo”? Olha pra mim, estou sempre pulando de galho em galho, ninguém hoje quer um compromisso sério, meus amores nunca duram mais que dois meses. O amor nunca esteve tão banalizado. Você acha que eu sou feliz, pulando de angolano em angolano? Tudo o que quero nessa vida é achar um Beto, um homem maduro, apaixonado, que está viajando milhares de quilômetros pra encontrar a mulher que ama! Acorda mulher! Nesse mundo cada vez mais individualista são raros os homens que fazem isso, ele escolheu o caminho mais difícil, sair de sua casa e viajar pra conhecer a mulher por quem se apaixonou. Você pode até se sentir insegura, eu entendo, mas aqui é a sua terra, ele, o Beto, é o forasteiro.
- Você tem razão Aninha! Estou sendo egoísta e só pensando nos meus sentimentos.
- Pare de olhar pra trás, esquece os traumas que passou, as desilusões causadas pelas suas outras relações, isso é no mínimo injusto com o Beto, ele é outra pessoa em outro momento e não merece carregar o fardo de suas relações fracassadas. Pare de inventar problemas que você não tem e tenta, pelo menos tenta afastar todos os pensamentos negativos de sua cabeça. Na hora que aparecerem, substitua por uma coisa boa. Algo que construa e alimente esse sentimento. Agora vamos andando, não vai ser nada legal ele chegar e não te encontrar na rodoviária. Vamos Mulher, vamos viver esse amor... Acredite! Vai dar tudo certo!

Fernanda visivelmente emocionada, só que agora com um sorriso discreto no rosto, então olha para sua amiga encarando-a sem falar nada, com uma carinha de quem está por aprontar alguma coisa. Ela morde com os dentes os lábios inferiores e fecha um pouco seus lindos olhos, aguçando a curiosidade de Aninha que não se contém e pergunta:

- O que foi mulher por que está me olhando assim? – Pergunta a desconfiada Aninha.
- Hummm... Feche os olhos e não fala nada!
- Mas por que você... Aninha não tem nem a chance de terminar sua frase, sendo interrompida pela incisiva Fernanda.
- Shhhhhh!!! Anda, faz o que estou mandando!
- Sim senhora! Já estão fechados! Mas por que você... Novamente Aninha é interrompida por Fernanda, só que agora com um selinho dado na boca de Aninha que leva um susto e arregala os olhos!
- Muito obrigado pelas suas palavras e porque não dizer pela chacoalhada. Obrigado por sempre estar ao meu lado, te amo por isso viu! Mas só por isso! Nem tente levar para o outro lado!
- Que isso! Longe de mim tal ideia! – Responde perplexa com a reação de Fernanda.
- Então pára de me enrolar e vamos embora, estamos atrasadas! Muito atrasadas! – Provoca Fernanda, ao mesmo tempo em que começa a dirigir em direção ao posto de gasolina.
- Posso emitir um comentário? – Pergunta Aninha com aquele ar de sacana.
- E adianta eu falar não? Você vai falar do mesmo jeito...
- Então... Você tem um boca gostosa! Será que eu não mereço outra bitoca, afinal eu fui pega de surpresa e nem deu pra sentir direito o gostinho... Provoca Aninha.
- Vai sonhando gostosa! Essa boquinha aqui agora só vai receber beijos do meu Beto!
- Tá bom, agora me explica esse plano! Afinal o que passa por essa cabeça pervertida?
- Explico sim, tudinho nos mínimos detalhes, mas primeiro vou abastecer e no caminho da pousada eu te falo, pode ser?
- E eu tenho alternativa? Tá pra nascer alguém mais teimosa, você só faz o que quer mesmo!
- O pior que não tem mesmo, nessa “relação” quem manda sou eu e você só obedece. Provoca Fernanda dando uma piscadela e soltando aquele sorriso sedutor. 

Algumas esquinas depois Fernanda estaciona o carro junto à bomba de gasolina do posto que habitualmente frequenta, pedindo ao frentista que complete o tanque, calibre os pneus e dê uma checada no óleo e claro tudo com muita pressa, muita pressa.  Abre a porta do carro e se dirige a loja de conveniência, mas antes de sair pergunta a Aninha:

- Vou comprar algumas guloseimas para beliscarmos na viagem, você quer alguma coisa?
Aninha pega sua bolsa e começa a procurar por algo enquanto Fernanda espera impacientemente pela resposta.
- Anda guria! O que você está procurando nessa bolsa? Diz logo o que você quer!
- Espera um pouco! Reclama Aninha levantando a cabeça e olhando para Fernanda enquanto sua mão tateia pela bolsa.  – Ah! Deixa pra lá, não achei, mas está aqui em algum lugar, mas na dúvida compra uma dúzia de camisinhas, sabor morango, por favor!
- Palhaça! Eu aqui achando que era algo sério!... E se não tiver sabor morango, serve chocolate? – Responde Fernanda em tom de ironia.
- Claro que não! Chocolate engorda!

Fernanda fecha a porta do carro sem responder e sai resmungando “Não sei por que ainda perco meu tempo com essa maluca”. Entra na loja de conveniência e começa a fazer suas comprinhas enquanto Aninha no carro coloca a música de “Beyonce – Check on it” em seguida pega o seu celular e começa a tirar fotos de si mesma, fazendo caras e bocas, poses e bicos.

O frentista termina o serviço e entra na loja para passar o valor a Fernanda que já está no caixa esperando para efetuar o pagamento, quando escuta o som de uma mensagem que chega ao seu celular, aquele friozinho na barriga, seu coração bate mais forte. Apressadamente tira o celular da bolsa e ao olhar no visor descobre que a mensagem é de Aninha e pensa: “lá vem besteira, quer apostar? Eu vou matar essa guria!”

“Amiga, discretamente dê uma olhadinha para fora, e veja quem acabou de chegar no posto a sua procura”

Fernanda olha para fora da loja de conveniência, procura rapidamente por alguém conhecido e não encontra ninguém, está com pressa em sair logo dali e então volta sua atenção para a moça que está lhe atendendo, pedindo que digite a senha do seu cartão. Pagamento feito, ela pega as sacolas com suas compras quando toma um susto ao escutar aquela voz.

- Posso lhe ajudar a carregar as sacolas?
- Ah não! Isso só pode ser perseguição, joguei pedra na cruz! Exclama Fernanda ao virar e dar de cara com Paulinho. Revirando os olhos e nada satisfeita com aquela situação responde: – Boa tarde senhor policial, não sabia que ajudar senhoras a carregar sacolas fazia parte do ofício da polícia!
- Pare com isso Fê, eu gostaria de conversar com você, pode ser?
- Em primeiro lugar, me chame de “Senhora Fernanda”... E segundo, acho que não tenho nenhum assunto pendente com a polícia!  Fernanda começa a andar em direção ao carro, seguida de perto por Paulinho que continua a conversa.
- Você está indo pra onde? Treze Tílias? O que vai fazer lá com a Aninha?
Ela pára subitamente se voltando na direção de Paulinho que toma um susto e recua um passo assistindo Fernanda revirando sua bolsa até encontrar o documento do carro e a sua carteira de habilitação pra em seguida esticar o braço oferecendo seus documentos dizendo:
- Aqui! Senhor policial dê uma olhada em meus documentos, estão todos em dia, o que acredito me habilita viajar a qualquer lugar de meu interesse sem precisar comunicar meu destino a ninguém!
- Não quero ver seus documentos. – Responde Paulinho abaixando o braço de Fernanda – Quero apenas conversar com você, sinto saudades e acredito que nós dois ainda podemos ter uma nova chance, sei que cometi alguns erros e estou disposto a mostrar a você que posso fazer diferente. Eu sei que você ainda gosta de mim, essa sua atitude de estar sempre fugindo de mim é prova disso.
- Desculpe senhor policial, mas acredito que não temos nenhum assunto pendente, e já que não há nada que me impeça de seguir viagem, me dê licença, pois estou atrasada para meu compromisso. Um bom fim de tarde e uma ótima noite para o senhor! 

Fernanda retoma seu caminho em direção ao carro enquanto Paulinho fica parado olhando ela entrar, colocar suas sacolas no banco de trás, o cinto de segurança, dar a partida na ignição e sair lentamente do posto. Então ele pensa: “Seguindo naquela direção ela só pode estar indo para Treze Tílias passar o final de semana, mas eu sei como descobrir exatamente pra onde ela vai”. Paulinho coloca o capacete, sobe em sua moto e vai atrás de saber o destino de Fernanda.

- É mole ou quer mais? Ninguém merece viu!... Ô! Chiclete difícil largar do meu salto! Reclama ao explicar para Aninha o papo que teve com Paulinho.
- O Paulinho é uma boa pessoa, concordo que seja um pouco grudento demais pro meu paladar, mulher nenhuma gosta de homem que fica no pé.
- Já não sei mais o que fazer pra ele entender que acabou. Quanto mais “fora” eu dou, mais ele insiste!
- Você já tentou “conversar” com ele? Porque esse seu sangue italiano quando junta com essa sua língua afiada, pobre de quem esteja pela frente!
- Pois então... Já que você conhece a minha língua, vamos mudar de assunto antes que sobre pra você. Deixa o Paulinho pra lá, um dia ele desencana e se toca que não é a tampa do meu pote.
- Ui!... Xulapt!... Vai, bate mais... Maltrata quem só te dá carinho e amor!
- Boba!... Você sabe que te amo! Como eu sei que adora uns tapinhas!
- Hummm... tô começando a gostar do papo...línguas... tapinhas! Encosta aí na estrada pra conversarmos melhor!
- Vou guardar minha língua e meus tapinhas para o meu amor... Você neste final de semana só vai ser a minha guarda-costas.
- Guarda-costas? Como assim? Igual ao filme? Então... Eu serei o seu Kevin Costner!... E você será minha Whitney Houston!... E nós nos amaremos para sempre?
- Ai meu Deus! Que mente pervertida você tem, todos os caminhos levam a um único destino. Vou marcar um psicólogo pra você quando voltarmos, isso só pode ser doença. Deixa eu te explicar direitinho o que tenho na cabeça.
- Tá! Eu deixo... Pode explicar... Mas não marque nenhum médico, por favor! Se isso for doença, eu quero morrer disso!

- Então, Aninha... Como não sei o que vai acontecer, tomei algumas precauções caso alguma coisa saia errado.
- O que poderia sair errado? Você está sendo pessimista!
- Pessimista não, realista, com os pés no chão. Lembra que te falei... Aluguei um chalé com dois quartos em uma pousada um pouco afastada do centro da cidade?
- Sei, continue... Você quer um refrigerante? Pergunta Aninha já se virando para pegar o refrigerante dentro da sacola no banco detrás do carro.
- Abre um e tomamos juntas... Então, se não rolar a tal “química” entre nós dois eu não quero ficar constrangida em dormir no mesmo quarto que ele.
- Hum... Vem cá, ainda estamos falando do mesmo homem? – Indaga Aninha, logo após dar um gole e em seguida oferecendo a Fernanda.
- Deixa de ser chata, não espero e nem quero que isso aconteça, mas não deixa de ser uma possibilidade. Tenho que pensar em tudo... E pra me sentir mais segura estou levando você junto comigo.
- Na boa amiga, você tá exagerando um pouco, mas continue...
- Não é exagero, eu gosto das coisas certinhas, você sabe disso... Então eu aluguei um quarto para você também, assim se precisar, vai estar por perto, vou me sentir mais confiante sabendo que tem alguém que conheço.
- E o que espera que eu faça quando vocês chegarem à pousada?
- Nada, apenas esteja lá, por favor, não vá sumir e me deixar sozinha, por favor!!!
- Pode ficar tranquila, não vou a lugar nenhum, pelos menos até saber o desenlace deste encontro que era pra ser simples e já está me parecendo algo complicado.
- Complicado? O que tem de complicado no que estou falando?  Pergunta Fernanda aparentando certa irritação.
- Deixa pra lá... Depois conversamos, agora me explica uma coisa; vamos supor que de tudo certinho, que seja tudo igual ou até melhor do que estão esperando, o que acontece comigo depois? Fico de guarda na pousada os cinco dias e depois voltamos juntas pra casa, ou tô “liberada” no dia seguinte? Posso pegar um ônibus na rodoviária e voltar, sem problemas!
- Não! Quero que você fique até o fim comigo. Não sei o que vai acontecer em nenhum destes cinco dias, e você volta pra casa comigo!!! Entendeu?!
- Sim senhora, mas será que eu posso sair do meu quartinho e dar um passeio no quintal pelo menos?
- Nossa como você é implicante! Responde nervosa, ao mesmo tempo em que pega o refrigerante das mãos de Aninha e completa – Tô pedindo demais? Que você me apóie nesses cinco dias? Será que pode pelo menos desta vez sossegar o seu facho e ajudar a sua amiga, sem aprontar nada, sem desaparecer e me deixar na mão? Não consegue entender que agora é pra valer, que nem eu nem o Beto sabemos o que vai acontecer, que a vida real é diferente da virtual!  Existem outros fatores que influenciam uma relação e que nunca passamos por isso juntos. Não sei o sabor do beijo, do toque, do cheiro, nem sei como é a voz dele de verdade, só nos falamos por telefone e ainda tem a cama, ele é um cara muito mais experiente que eu, mora na cidade grande, e eu sou apenas uma garota do interior que tive meia dúzia de homens na minha vida inteira! Então eu posso contar com a sua ajuda, ou não?
- Então... Fernanda, se minha presença vai trazer de alguma forma essa segurança pra que você viva esse amor, estarei ao seu lado, basta me orientar o que fazer, ok? Responde Aninha sentindo o clima mais pesado na conversa e achando melhor não confrontar a amiga com suas opiniões.
- Eu não sei o que vai acontecer, vamos ver... Sei lá! Não quero ficar achando muita coisa, apenas vou viver um dia de cada vez e ver o que acontece.
- Tudo bem Fernanda, estarei lá e pode contar comigo.
- Obrigado Aninha.
- Você quer um pedaço de chocolate? – Oferece Aninha na tentativa de mudar de assunto e adocicar aquela conversa.
- Não, obrigada! Responde friamente Fernanda.
- Hum... Tá bom! Assim sobra mais pra mim! Devolve Aninha balançando os ombros e com uma voz de “tanto faz”, coloca os dois pés sobre o console do carro, degustando a barra de chocolate e demonstrado estar se deliciando com o doce. Mas sua travessura não dura muito tempo, pois logo recebe aquele olhar fulminante de Fernanda que a faz rapidamente tirar os pés do console, voltando a sentar de forma normal arregalando os olhos para Fernanda, como se tivesse pedindo desculpas: – Já não esta mais aqui quem fez isso!

Agora o barulho do vento entrando pela janela era o único fundo musical para aquela jornada, enquanto Fernanda prestava atenção na estrada e talvez se perdesse em seus pensamentos curva após curva, Aninha curtia o visual do entardecer admirando a bela paisagem repleta de árvores típicas da região, iluminadas pelos poucos raios de sol que ainda surgiam por entre as frestas das montanhas espalhadas no horizonte.

.......

- Ô de casa!!! – Grita Paulinho – Não obtendo resposta, ele continua só que agora batendo palmas ao mesmo tempo – Ô de casa!!!
- Paulinho!!! Que surpresa boa!
- Tudo bem com você Lurdinha? Estava passando e resolvi dar uma parada pra saber das novidades e perguntar se está precisando de alguma coisa.
- Você sempre foi um bom menino, obrigado por se preocupar com essa velha aqui!
- Que velha nada Lurdinha, a senhora está cada dia mais jovem e mais bonita, o tempo parece não passar para você.
- Bondade sua menino! Responde Lurdinha para o rapaz que sempre desejou ter como seu genro.
- Sabe que eu tenho um carinho enorme pela senhora, lhe considero como uma segunda mãe!
- E você sabe que a minha maior felicidade seria ver a tonta da minha filha casada com você, mas ela nunca escuta o que eu falo, parece que faz de propósito, só pra me contrariar! Como ela não enxerga em você um homem bom, trabalhador e responsável?  “Um bom partido”, um rapaz de família. – Devaneia Lurdes – E por falar em família como vão seus pais?
- Estão todos bem lá em casa, com saúde, que é mais importante.
- Entre Paulinho, você não quer tomar um café e comer um bolinho de laranja que acabei de fazer?
- Infelizmente vou ter que deixar esse bolinho pra outro dia, ainda estou de serviço, só dei essa paradinha aqui pra saber se está precisando de alguma coisa, pois vi que a Fernanda passou com a Aninha cheia de malas no carro em direção a estrada.
- É verdade... As duas foram passar o final de semana fora, mas obrigado pela sua preocupação. Eu não tô precisando de nada não.
- Então tá Lurdinha, você tem meu celular, qualquer coisa que precise basta me ligar que eu venho lhe ajudar. Logo em seguida dá um beijo na testa de Lurdes.
- Bah, não bastasse ser lindo, você ainda é carinhoso, um doce! – Responde a encantada Lurdes.
- Que isso, você que é um “pitel”! A sogra que eu pedi a Deus!

Paulinho caminha de volta para sua moto, coloca o capacete e antes de dar a partida fala para Lurdes:

- Domingo é minha folga estarei livre o dia inteiro, precisando é só chamar!
- Não vou precisar de nada, moço bonito! Aproveita pra descansar ou quem sabe pra fazer uma viagem curta, isso iria lhe fazer muito bem, ouvi falar que em Treze Tílias vai ter algum agito, um bailão, aproveita para se divertir!
- Opa! Eu adoro um bailão, quem sabe apareço por lá! Obrigado pela dica, e tenha uma boa noite!
- Uma boa noite pra você também! E cuidado com essa moto menino!
- Pode deixar, eu dirijo com cuidado.
 
Paulinho fecha a viseira da sua moto dando a partida e saindo satisfeito, pois agora tinha certeza de onde estaria Fernanda neste final de semana, enquanto Lurdes caminha entrando em casa e sendo logo recebida pela saltitante Júlia que pergunta:
 
- Vó, com que você estava conversando lá fora?
- Com o futuro pai de vocês!
- A senhora tava falando com o Beto? – Exclama Júlia entusiasmada! – Aí Vó!... Isso não vale, por que a senhora não me chamou? Eu queria muito conhecer o Beto!
- Não estava falando com esse “tal” de Beto Júlinha. – Desdenha Lurdes que logo muda de assunto - Que tal comermos aquele bolo delicioso de laranja que eu fiz e que você tanto adora?
- Hummm... Eu adooooro bolo de laranja! Posso tomar com refrigerante? Deixa... Deixa...Deixa...  Vózinha do meu coração?
- E como resistir a esse sorriso lindo? Claro que sim, vamos para a cozinha e chama o Léo pra comer também.

Júlia entra correndo, saltitando e gritando por Léo chamando, o irmão, para comer bolo. Lurdes então fecha a porta da casa e pensa: “Beto é? Eu sabia que essa minha filha estava escondendo algo, boa coisa ele não deve ser, pra estarem se escondendo assim.”

Muitas curvas, subidas e descidas depois, Fernanda e Aninha chegam à pousada. No caminho, apenas algumas poucas palavras triviais foram trocadas. Ao passarem pelo portal de entrada ficaram pasmas com a beleza do local. Lentamente se dirigiam à recepção, enquanto passavam por uma estradinha de paralelepípedos cercada por árvores repleta de flores, que formavam um túnel cuidadosamente iluminado com refletores indicando sob a forma de uma trilha o caminho a seguirem.
 
- Que lindooooo!!! Exclamam as duas ao mesmo tempo!


Ao final da estradinha avistam a recepção da pousada. Hipnotizadas pela beleza do local seguem o caminho e ao sair do túnel, olham para sua esquerda e avistam um pequeno lago, contornado por algumas árvores frondosas e no meio um deck flutuante com um chapéu de palha ao centro que estrategicamente iluminava de forma suave todo o lago.

- Que lindooooo!!! Exclamam as duas ao mesmo tempo!

 
- E tem pedalinho!!! Exclamam novamente juntas!


Maravilhadas com o local, estacionam o carro junto à porta da recepção e logo são recebidas pelo simpático Bitter, o dono da pousada.

- Sejam bem vindas meninas, fizeram boa viagem?
- Um pouco cansativa, mas correu tudo bem! – Responde Fernanda
- A sua pousada é muito bonita, pra não dizer apaixonante – Comenta Aninha
- Que bom que gostaram, eu e minha esposa Tude cuidamos dela com muito amor há quase trintas anos.
- Dá pra notar o carinho logo na porta de entrada! Vocês estão de parabéns!
- Vocês querem conhecer a pousada ou preferem que mostrem logo a vocês o chalé?
- Ai seu Bitter, eu adoraria conhecer a pousada, mas estou com certa pressa, ainda tenho que voltar a rodoviária e pegar a outra pessoa que estamos esperando.
- Sem problemas meninas, eu vou pegar as chaves e já volto, enquanto isso, por favor, vocês podem tirar as malas do carro, mas não precisam carregar, vou chamar o Antônio, ele carrega para vocês.

- Nossa Aninha que lugar lindo, não esperava que fosse tanto assim! – Comenta Fernanda, sentindo-se envolvida pela beleza do local.
- E romântico! – Não poderia existir cenário melhor pra esse momento.
- Não mesmo! Não mesmo! – Responde Fernanda meio que viajando em suas expectativas, imaginado seus dias com Beto naquele lugar, enquanto Aninha aproveita para tirar as malas do carro.
- Vamos meninas!!! O Caminho é por aqui!! – Acena Bitter indicando o caminho a ser seguido.

Talvez a pedido de Fernanda ou por capricho do destino, eles caminham por cerca de cinco minutos passando por trilhas sempre cercadas por arbustos floridos até chegarem no que seria o último e mais distante dos chalés. Então o simpático Bitter com um sorriso largo vira-se para as meninas e pergunta:

- Quem vai ficar na parte de cima e quem vai ficar na de baixo?
- Como assim, parte de cima e parte de baixo?  Exclama Aninha: – Não foram dois chalés que foram reservados?
- Hehehe... Claro que são dois! Nossos chalés têm dois andares, o chalé de baixo tem dois quartos e o de cima um quarto só – Responde Peter soltando uma gargalhada gostosa, que balança sua barriga parecida com a de um papai Noel,  e se não fossem seus longos e ruivos cabelos ele até poderia ser o próprio.
- Bem... Então só me resta ficar com o de cima. – Responde Aninha, soltando um olhar fulminante de quem não gostou da surpresa.
- Vou deixá-las à vontade para decidirem, por favor, depois alguma de vocês dê um pulo na recepção, para preencher o cadastro e assinar e pegar o recibo do pagamento!
- Pode deixar, daqui a pouco a Aninha vai lá! – Responde Fernanda com um tom de pressa, e logo vira-se para a amiga e fala:
- Vamos Aninha, tenho que tomar um banho e sair correndo! Vê se não complica as coisas agora, por favor!
- Vem cá “dona Fernanda”, isso fazia parte do seu plano? Você sabia desta história de que um chalé era em cima do outro?
- Ai! Aninha!... Lá vem você preocupada de novo com detalhes!
- DETALHES?! E que detalhes!!! Vou ficar em cima do casal de pombinhos no maior love! Deveria ter me avisado, pelo menos eu traria um tapa ouvidos! – Esbraveja Aninha!
- Ai Aninha!... Como você é exagerada! Preciso correr, estou atrasada, muito atrasada e ainda tenho que tomar um banho. – Responde Fernanda já tirando a roupa e entrando no banheiro e completa: - Vai atrás desse Antonio com nossas malas, isso sim! Anda, vai logo!
- Nem morta eu fico aqui, isso é pedir demais de mim, você não acha? Olha! Amizade tem limite, e acho que agora você pegou pesado demais! Não tenho vocação pra freira, você sabe disso!
- Anda Aninha! Vai atrás das nossas malas! – Grita Fernanda já dentro do chuveiro!
- Eu vou é pedir pra trocar de chalé! Isso sim! Aqui eu não fico mesmo!
- Nem perca seu tempo! A pousada estava lotada, foi um sufoco conseguir essa reserva! Por sorte alguém desistiu.
- Sacana! E você sabia disso o tempo todo, e não me falou nada! Olha quem vai desistir sou eu, não há nada no mundo que me faça ficar aqui, vou pegar minha malinha e arrumar outro lugar pra ficar! – Reclama Aninha inconformada com a situação.
- Vai logo, para de reclamar, tá parecendo uma velha! Curte esse local lindo!
- Linda vai ficar sua cara quando eu desaparecer daqui! Vou sair e resolver isso... Tô saindo viu!... Tchau amiga da onça!

Aninha segue revoltada em direção a porta, resmungando os piores adjetivos para classificar sua amiga, abre a porta de supetão e logo toma um enorme susto ao se deparar com Antônio, parado bem na frente da porta segurando as malas!

- Boa noite senhorita, aonde gostaria que eu colocasse suas malas?
- Você...É... O Antônio? – Gagueja Aninha ao se deparar com aquele sotaque inconfundível.
- Sim, meu nome é Antônio e estou aqui para serví-la da melhor maneira possível!
- Bem Antônio... Você acredita em Deus?
- Como assim Senhorita, não entendi a sua pergunta?
- Deixa pra lá, faz o seguinte, deixa essa mala azul aqui neste quarto, e você poderia ajudar a carregar essas outras malas para o quarto de cima? Estou tão cansada, com o corpo moído da viagem...
- Ora pois, claro que sim, com o maior prazer!
- Ai...Ai...Ai... Que calor! – Cochicha baixinho Aninha ao dar uma olhada em Antônio, enquanto ele coloca a mala de Fernanda no quarto, e pergunta a si mesmo “O que um Deus de ébano destes está fazendo perdido em Treze Tílias?”
- Pronto senhorita! Agora vou levar as suas malas para o andar de cima?
- Por favor, vai na frente que vou logo atrás de você – Responde Aninha entregando as chaves para Antônio que em seguida começa a subir as escadas sob os olhos atentos de Aninha que ao ver ele entrar em seu apartamento, comenta: – Nossa, ainda não descobri se ele é mais bonito indo ou voltando!

Antônio desce as escadas e pergunta se pode ajudá-la em algo mais. Aninha segura firme nos braços musculosos e pede que mostre toda a pousada. – Não se esqueça de mostrar tudinho, quero conhecer cada cantinho, até os mais escondidos deste “maravilhooooso” lugar. Quero um passeio turístico completo!

Fernanda sai apressada do banho e percebe que está sozinha no quarto, e logo vai abrindo a mala e pegando a roupa que separou para o primeiro encontro com Beto. Tinha reservado um vestidinho preto básico soltinho tomara que caia, por cima jogaria um bolero e uma botinha de bico e salto fino. Seguindo quase que um ritual ela espalha lentamente uma loção sensual pelo corpo, em seguida veste sua lingerie Victoria’s Secret comprada especialmente para ocasião. Maquiagem a mínima possível, apenas um gloss nos lábios, lápis pra realçar seus lindos olhos e uma máscara para os cílios. Pronto! Agora só mais alguns minutinhos secando os cabelos e depois o toque final, algumas borrifadas do seu inseparável perfume, Lou Lou!

Fernanda dá uma última checada no espelho, conferindo o visual e começa a pensar que esta chegando a hora de finalmente conhecer Beto e começa a falar consigo mesma. “Ai Meu Deus, tomará que dê tudo certo, que ele goste de mim e que eu goste dele... isso é tudo uma loucura, mas não tenho como voltar atrás agora... Onde foi parar a mala da Aninha numa hora dessas, será que a doida foi embora mesmo? Vou atrás dela!”

Ao abrir a porta do chalé ela escuta o som de uma mensagem chegando em seu celular, então corre para ver de quem é. Olha no visor! É de Beto!

“Oi amor, cheguei em Joaçaba, o que antes parecia um sonho, está prestes a se tornar realidade, quero olhar nos seus olhos, sentir seu abraço e provar desse amor, te espero sempre! Eu...Vc”

Fernanda fica pálida, sente seu corpo tremer e suas pernas ficarem bambas, quando Aninha entra com a cara mais feliz do mundo e pergunta:

- Que cara é essa amiga? Viu alguma assombração?
- Não, O Beto está em Joaçaba! Acabou de mandar uma mensagem!
- Então, tá esperando o que, não é pra isso que estamos aqui, vai lá conhecer o teu homem e descobre logo de uma vez por todas se ele é “o cara”!
- Tá...tá bom... Vou indo sim... - Responde Fernanda se sentido super insegura.
- Como te prometi, vou estar aqui na pousada te dando todo o apoio que me pediu.
- Mas onde foi parar aquela raiva toda, só porque vai ficar aí... no andar de cima?
- Não amiga, eu pensei melhor e meu lugar é aqui mesmo ao seu lado pro quer der e vier, sou o seu guarda-costas! Lembra? Agora vai, e aproveita que ainda tem um tempinho e pára em algum lugar para fazer essas unhas, estão horríveis!
- Ai meu Deus!!! Minhas unhas!!! Como pude esquecer? Não vai dar tempo, não vai dar tempo! Preciso correr! Tchau! Tchau! Tchau! Me deseje sorte! Fernanda sai correndo porta a fora, entrando no carro e seguindo em direção a cidade na esperança de encontrar algum salão de beleza aberto e que ainda dê tempo de pegar Beto na rodoviária.
 
Aninha comenta sozinha:


 “Sorte? Você é uma mulher de sorte, muita sorte... Realmente espero que descubra isso a tempo. Boa Sorte amiga e que Deus te proteja.”


Próximo capítulo " O Encontro " - Aguardem

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Web Book - Eu...Vc - Capítulo 8 Reviewed by Ricardo Leão on 8:08 PM Rating: 5

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