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Crônicas

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Teoria da evolução do amor

A Teoria da evolução se baseia na ideia que geração após geração nossas características físicas e biológicas são alteradas nos transformando em novos seres, novos organismos. Indiferente a nossa vontade o tempo, cruel vilão desta história, apenas assiste impassível a nossa mutação e cabe a nós apenas evoluir. Mas evoluir não necessariamente implica em melhorar. Em algum momento dessa evolução o amor dobrou na esquina errada e foi parar dentro do supermercado, mais precisamente na sessão de bebidas onde eu tranquilamente colocava algumas garrafas de coca-zero em meu carrinho quando percebi ao meu lado uma conversa entre duas amigas:

- Mas acabou mesmo amiga?
- Sim, tudo que é bom um dia acaba! Não é mesmo?
- Sim, mas você não estava gostando, eu diria até amando!
- Pode ser que sim, no começo era muito bom, tudo era novidade, mas
  sabe né? Com o tempo a coisa vai mudando!
- E você não quer tentar de novo?
- Não! A fila anda... Com tanta opção no mercado, é só procurar direitinho
  que acho algo melhor.
- Não entendo! Você disse que ele era tudo de bom! E como foi acabar
  assim?
- Sim, ele é tudo de bom, mas sei lá, com o tempo ficou vazio, foi
  perdendo a graça! Acho que enjoamos um do outro! – A amiga dá uma
  piscada para a outra soltando um sorrisinho sarcástico e logo pergunta –
  O que acha desse?
- Prefiro não comentar! Eu não sei... mas pela carinha me parece
  estranho!
- O que é estranho? – Pergunta a amiga intrigada.
- Sei lá! A carinha dele me parece meio estranha! Não gostei da boquinha!
- Ah! Mas da última vez eu fui pela embalagem, me dei mal! Agora tô numa
  de olhar o conteúdo, embalagem só não me atrai!
- Mas o visual é importante, assim dá pra sacar se é gostoso ou não!
- Se isso fosse verdade eu não estava solteira de novo, né amiga?
- Nisso você tem razão!
- Então... eu vou escolher esse aqui, é meio bonitinho, não é de marca
  famosa, mas tem tudo o que o outro tem!  Vou testar esse, se não
  gostar eu jogo fora e provo outro.
- Tá bom, mas pega o light viu! Tá na moda!
- Que nada, o que me interessa é o prazo de validade... Hum!...Deixa eu
  ver... Válido por um ano! Vou levar! Não vai durar isso tudo mesmo!
- É... Nunca dura!... Mas não se esqueça de ler as letrinhas miúdas viu! –
  “Depois de aberto melhor consumir em três dias!”
- Que nada!... É só colocar na geladeira que dura mais um pouco!
- Então vamos amiga... que ainda quero pegar um pão fresquinho, fofinho
  e quentinho! Adoro!
- Que nada!... você deveria comer é pão de forma, que já vem fofo,
  fatiado e dura mais... e se colocar na geladeira então...

Eu não sei bem até agora onde terminou o papo sobre a relação e onde começou o papo sobre qual marca de suco a ser escolhida, ou se o papo foi somente sobre o suco, ou somente sobre uma relação, ou estavam falando da mesma coisa ao mesmo tempo! Eu já nem sabia se o pão era mesmo um pão de verdade!


Saí de lá com a sensação de que o amor já não é mais a mesma coisa, mas não sem antes também comprar a minha caixinha de suco, ou amor, sei lá! Na pressa, ao chegar em casa fui logo colocando meu suco no congelador. Logo ficou pronto, geladinho e servido em uma taça usada apenas para ocasiões especiais. Saboreei aquele delicioso suco até a última gota, então olhando para aquela taça vazia, entendi que o papo entre as amigas só poderia ser sobre amor, porque um suco é um suco, nada mais que um suco!


Foi quando entendi que nos dias atuais as pessoas estão procurando um amor pronto, um amor feito uma caixinha de suco. A procura começa pela análise da embalagem baseada em suas experiências anteriores. Embalagem escolhida está na hora de checar suas informações nutricionais, contidas em uma porção: qual a quantidade de calorias, carboidratos e o nível de doçura. Gordura trans, nem pensar! As mais exigentes ainda procuram ler os ingredientes: Inteligência, educação, delicadeza, senso de humor, simpatia, caráter, romantismo, companheirismo e sinceridade, por último checam o prazo de validade, com a certeza, talvez inconsciente, de que ao comprar aquele amor, ele não durará para sempre. Pena que os defeitos não venham escritos na embalagem! Então se declaram apaixonadas, e vão aproveitando cada uma a sua maneira aquele novo amor. Umas com mais sede, vivendo aquilo intensamente outras nem tanto, preferem saboreá-lo lentamente. Mas tudo que bom acaba e em uma manhã qualquer ela olha pro lado e descobre que sua caixinha secou, está vazia!


Talvez seja mesmo um sinal dos tempos, talvez estejamos mesmo “evoluindo” para um novo tipo de amor, para uma nova forma de nos relacionarmos afetivamente com outras pessoas, talvez a facilidade de encontrar novos sabores e marcas nos levem a supermercados espalhados por boates, bares, festas, sites de relacionamentos, salas de bate-papo, orkuts e facebooks; na certeza de que logo encontraremos uma nova caixinha se suco, um novo amor. Talvez já estejamos geneticamente mudando para aceitar o vazio dentro de nós.


Mas falando em evolução, aonde foi parar aquela sementinha? Que plantamos e que deve ser regada e protegida com muito cuidado até que brote do chão de nossos corações, criando raízes, crescendo e se fortificando em nossas experiências, nos acolhendo nas tempestades, fornecendo a sombra nos dias de calor, se alimentando dos nossos sonhos e desejos até que um dia amadureça e nos cubra com suas flores e em seguida nos alimente com seus frutos. Frutos estes que viram suco, sem conservantes, aromatizantes e principalmente, não vem em caixinhas! E que para durarem uma vida inteira tudo o que você precisa ter para manter esse amor é nunca deixar de ter algo tão simples quanto ele – água!


Quem? Eu? Desculpe-me não tenho tempo pra isso. Preciso ir correndo ali no mercado, o suco com gominhos está em promoção! Não é todo dia que aparece uma oportunidade destas!

Teoria da evolução do amor Reviewed by Ricardo Leão on 8:50 AM Rating: 5

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