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Crônicas

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Web Book - Eu...Vc - Capítulo 5






Lentamente o ônibus vai saindo da rodoviária e tomando as ruas da cidade de Florianópolis. Ruas já conhecidas por ele, de tantas outras viagens feitas à capital catarinense, um lugar que realmente achava mágico, não só pela bela silhueta de seus morros, mas também pelas inúmeras praias habitadas por “tribos” que vinham de todas partes do mundo e adotavam aquele pedaço de terra para viver. Havia feito grandes amigos nas vezes que passou por lá, mas hoje não era dia de visitar velhos amigos, e sim de conhecer Fernanda, aquela pessoa que arrebatou seu coração em poucas horas e de uma forma que ele não conseguia entender, aquele magnetismo o atraía para ela, sem colocar nomes ou procurar razões para o que estava fazendo, ele apenas escutava seu coração que como uma bússola, que só aponta para o norte, só apontava para Fernanda.


Na passagem pela ponte que divide a ilha do continente, ele pega sua câmera fotográfica e começa a tirar algumas fotos, queria registrar o que pra ele seria o começo de um momento especial em sua vida, quando a florida e alegre Matilde comenta:

    - Eu sou apaixonada por essa ponte, toda vez que passo aqui eu me emociono, nem sei bem por que, mas acho isso aqui a coisa mais linda do mundo!

Beto continua a tirar suas fotos, aprendeu na vida a curtir e a valorizar os pequenos momentos que a vida oferece e por certo sua companheira de viagem não se ofenderia se ele demorasse uma pouco para responder. Afinal, ambos passariam muito tempo juntos e a julgar pela carinha feliz dela olhando para ele, a viagem seria regada a muito papo, pão de queijo e cueca virada. Logo a ponte ficou para trás, restando apenas uma grande avenida que os levaria a rodovia, ele então guarda sua câmera, vira em direção a Matilde e responde:

    _ Amo esse lugar, sempre que posso venho aqui, mas esta é a primeira vez que fico feliz ao cruzar a ponte na direção do continente, é uma nova e diferente sensação! Interessante!
    _ E pra onde você esta indo? – pergunta Matilde
    _ Estou indo a Treze Tílias encontrar uma pessoa.
    _ Oba! – exclama feliz da vida – Eu tô indo para Joaçaba, uma cidade que fica pertinho de lá, também conheço muito bem Treze Tílias, foi lá que conheci o João, o homem da minha vida, ele é escultor e tem um atêlier.
    _ Mas porque está indo então pra Joaçaba e não pra Treze Tílias?
    _ Ah! É uma história longa e complicada você realmente quer ouvir?

Beto tira os fones de ouvido, se ajeita na poltrona virando mais ainda na direção de Matilde e com um sorriso simpático diz a ela: – Claro, sim, eu adoro ouvir histórias e se você não se importar em contar, adoraria escutar.

Matilde já com um sorriso estampado na cara, abre seu saquinho e começa a degustar suas cuecas viradas, procurando uma posição confortável na poltrona para então iniciar sua história.

    _ Então... você não se importa que eu fale e vá comendo né? Eu fico nervosa sempre que conto essa história pra alguém.
    _ Claro que não, fique à vontade. Responde achando graça ao reparar no nervosismo quase que juvenil dela.
    _ Então... Na verdade, eu moro em Imbituba, uma cidadezinha a cem quilômetros de Florianópolis, mas minha família toda é de Joaçaba.
    _ E como você foi parar em Imbituba mocinha? – Pergunta já intrigado.
    _ Hehehe... obrigado pelo mocinha, mas faz tempo que já deixei de ser mocinha, tenho uma filha de dezoito anos sabia? Essa carinha de jovem aqui é conservada a base de muito creme... então, voltando ao assunto de como vim parar em Imbituba... “Ó-lhó-lhó”, o amor né! O que mais nessa vida faz a gente cometer loucuras? Apaixonei-me perdidamente por um galego e não pensei duas vezes, briguei com toda minha família, mas segui o meu coração e fui viver minha paixão e do fruto desse amor nasceu a minha filha, que é a razão da minha vida!
    _ Tá, mas se o amor da sua vida está em Treze Tílias, sua família em Joaçaba, o que você ainda esta fazendo em Imbituba? – Beto aproveita para perguntar enquanto Matilde devora mais um cueca virada.
    _ Hummm! Assim! – Com a boca cheia ela responde – “Ó-lhó-lhó”, o amor né! Minha filha tem um namoradinho, os dois parecem um casal de pombinhos, estão sempre grudadinhos dia e noite, o amor deles é tão lindo que não vou ser eu a estragar isso, se um dia larguei tudo na minha vida para correr atrás de um grande amor, eu não tenho o direito de tirar isso dela. Você não acha?
    _ Eu acho que você é uma pessoa muito especial, por enxergar a vida deste jeito.
    _ Que isso seu Beto! – Responde já meio envergonhada.
    _ Eu tô falando sério, abdicar da sua vida para que sua filha possa viver esse amor, não é algo que todo mundo faça, as pessoas hoje estão muito centradas nos seus próprios problemas e por muitas vezes não enxergam em seus entes mais queridos os problemas que os afligem – acreditam que apenas a sua presença diária, o sustento do lar garantido, ou a certeza da melhor escola ou ainda porque lhes permitem vestirem as melhores roupas da marca da moda, já lhes garantem motivos mais que suficientes para nem pensarem em ter problemas. Na verdade, o que eles pedem e precisam é um pouco mais de atenção, de dedicação, uma conversa sobre os assuntos que lhes interessam e um carinho seguido de uma frase assim como quem sabe um... “eu te amo”.
Matilde dá uma pausa olha bem séria para Beto, com uma cara de interrogação misturada com um ar de quem está meio sem entender, e de cachorro abandonado. Respira fundo, como se tivesse criando coragem para falar alguma coisa, quando Beto já percebendo a situação se antecipa e pergunta:

    _ Tá tudo bem com você?
    _ Tá sim seu Beto. – responde com um olhar mais sem graça ainda.
    _ Olha, não precisa me chamar de “seu” Beto, só Beto está bem? Você quer perguntar, ou falar alguma coisa?
    _ É... querer eu quero, mas não sei se devo.
    _ Anda Matilde, pode perguntar o que quiser – responde com um sorriso aberto – tentando tranquilizar sua companheira de viagem.
    _ Bem... é o seguinte... – mais uma pausa seguida de um suspiro.
    _ Pode falar, o que é? Está me deixando curioso!
    _ Tá bom seu Beto, opa! Quero dizer, Beto, o máximo que o senhor, opa! Quero dizer, você... pode dizer é não, né?
    _ Diga logo Matilde! O que você quiser eu dou, mas diga logo!
    _ O senhor... ainda vai... comer seus pães de queijo? Quando eles ficam frios, ficam borrachudos e podem até quebrar um dente, tenho uma prima que ficou sem os dois dentes da frente, claro que eles eram falsos, quando mordeu um pão de queijo borrachudo.
    _ Claro que não! – Responde Beto rapidamente pra espanto de Matilde. Completando em seguida já com um sorriso de criança na cara – Claro que não vou comer mais os pães de queijo, estava mesmo pensando em lhe oferecer.

Matilde feliz da vida como uma criança, coloca o saco de pães de queijo no colo e agradece pela gentileza, logo pega um, levando à boca e dando uma suculenta mordida e ainda com a boca cheia vira para Beto e diz:

    _ Hummm... Beto, eu não to “bidicando” de nada na minha vida não! Eu sou a filha mais nova de uma família muito grande e cresci ouvindo os lamentos de todos. Sabe, a cozinha é o lugar dos lamentos, todo mudo se reunia lá pra lamentar a falta de dinheiro, a falta de sorte, a falta se chuva, a falta de vergonha na cara da vizinha, às vezes até a falta de comida... tinha até dia marcado, toda sexta-feira, depois do sol se esconder por trás do morro, alguém trazia um garrafão de vinho, todos se reuniam em volta da mesa parar lamentar. Mas o tempo me fez perceber que todos esses lamentos cedo ou tarde passavam, mas uma única coisa não mudava, era o lamento pela falta de amor, ou pelo amor perdido, ou pelo amor não vivido. Descobri que é o amor que alimenta a alma e a alma é o alimento do corpo e um corpo alimentado é um corpo feliz, então por isso é tão importante amar alguém!

Matilde olha para Beto já com uma cara sem vergonha e fala:

    _ Coca quente também é ruim, né? Vira purgante, desentope até pia, sabia?

Beto, então, pega a coca em sua poltrona e entrega a Matilde e achando muita graça fala – Matilde, você não existe! Mas por favor, continue eu realmente estou aprendendo muito com sua história de vida.

Matilde agradece e de uma golada só toma metade da garrafa de refrigerante, parecia estar entalada com o já provável borrachudo pão de queijo e depois de sentir-se aliviada ela continua.

    _ Então...continuando... Eu passo os dias de semana em Imbituba e nos finais de semana vou ver o João. Eu trabalho como costureira. Tá vendo esse vestido aqui? Fui eu quem fez, ah! E minha bolsa de mão também. Lindas, né? Você não achou lindas estas flores? Eu adoro flores, e você gosta?
    _ Sim, eu adoro a natureza, e as flores combinam muito com sua alegria.
    _ Eu tenho uma irmã em Joaçaba que tem uma lojinha de roupas e bijuterias, toda semana eu entrego a minha produção pra ela vender e na segunda quando volto, pego o dinheirinho que consegui, dou uma paradinha em Florianópolis para comprar mais tecidos e vou pra minha casa, fazer o que mais amo, que é costurar! Essa é minha vidinha que amo tanto.
    _ Mas não é muito chato, fazer isso o tempo todo, todos os finais de semana a mesma coisa, durante o ano todo. – Pergunta Beto tentando descobrir como algo tão repetitivo não cansa aquela intrigante mulher.

Matilde olha bem sério para Beto e diz:

    _ Vire agora e olhe a paisagem lá fora; linda não é mesmo?
    _ Maravilhosa! – Responde Beto encantado com a vista.
    _ A única coisa que é sempre igual aqui são as curvas da estrada, mas se você prestar atenção lá fora, quando o dia está ensolarado como hoje fica desse jeito, já com chuva vai parecer diferente. Se estiver com neblina, você ainda ganha uma sensação do inesperado no estômago e se for noite, você tenta descobrir as formas nas sombras, que aparecem rapidamente, do mesmo jeito quando olhamos paras as nuvens e tentamos adivinhar com que figuras elas se parecem. Agora semana que vem já vai estar tudo diferente, talvez seja outono e as folhas se espalhem pelo caminho, ou talvez primavera e as árvores estejam cheias de frutas, ou quem sabe, talvez, estejamos na época da colheita onde você vai ver estas longas plantações em diversos tons de verde feito pelas colheitadeiras.

Beto totalmente hipnotizado pela paisagem deslumbrante, só consegue responder, hum rum... hum rum... Agora já com sua máquina fotográfica na mão, dispara inúmeras vezes, entendendo que aquele momento é único e mesmo que retorne um dia, naquele mesmo lugar, não vai encontrar a mesma coisa. De certa forma aquele era o pano de fundo, a paisagem que a natureza tinha criado e oferecido a ele para viver esse momento tão especial em sua vida.

Matilde então continua a falar, respondendo à sua pergunta. – E quando eu chego na casa da minha irmã, sempre tem uma coisa nova que aconteceu na cidade e colocamos as fofocas em dia, coisas de mulher, você sabe como é, né? Depois de tomar aquele café gostoso, vou ao salão de beleza, dar um jeitinho no meu visual pra ficar bem bonita pro meu João e claro que lá me atualizo das fofocas restantes que minha irmã não me contou. Nunca é a mesma coisa, toda semana tem alguém traindo alguém na cidade. Agora Beto tem uma coisa que eu nunca quero que mude:

Beto então se vira pra Matilde e pergunta o que é essa coisa?

É o som do barulho da moto do meu João chegando pra me pegar. Não quero que mude o sorriso dele quando olha pra mim. Não quero que mude o jeito que eu o agarro pela cintura e recosto minha cabeça nas suas costas na garupa de sua moto, enquanto ele me leva em seu cavalo motorizado para o seu castelo de tijolos aparentes, não tão grande nem tão bonito quanto um castelo, mas lá eu me sinto a princesa mais feliz e amada do mundo! Isso eu não quero que mude nunca. O amor da minha filha, o amor de minha família e principalmente o amor do meu homem...

Beto já visivelmente emocionado pelas palavras de Matilde, segura a mão dela e olhando em seus olhos diz: – Muito obrigado mesmo, por ser uma pessoa tão generosa e por ter um coração tão grande e certamente cheio de amor; o mundo deveria ter mais Matildes como você, então pega sua máquina fotográfica e tira uma foto dela,  que emocionada, mas tentando disfarçar fala pra Beto:

    _ Agora é sua vez de me contar a sua história!
    _ Minha história ainda não tem um fim e nem sei se começou, é um pouco complicada...
    _ Ai, conta vai, conta, conta, conta! – Matilde pede com as mãozinhas unidas e usando aquela carinha de cachorro abandonado.
    _ Antes eu preciso ir ao banheiro. – Suplica Beto na tentativa de fugir de Matilde
    _ Ai, preciso ir ao banheiro também. Olha só, ir ao banheiro em ônibus subindo a serra também é algo que nunca é igual! É sempre uma aventura diferente.
    _ Também estou com vontade de experimentar algo diferente, vou logo depois de você – Beto responde educadamente.
    _ Não, vai você primeiro, depois eu vou. — fala Matilde já se levantando e dando passagem para Beto.
    _ De maneira alguma! – exclama Beto – A minha educação jamais permitiria isso.

Então ambos se levantam e caminham até o banheiro. Beto fica ao lado da porta esperando Matilde sair. Dez minutos se passam e Beto já desconfiado pelo tempo que ela estava lá dentro e por tudo que ela havia comido, começou a se preparar para o pior. O que não demorou muito a acontecer. Ao abrir a porta, aquele odor horrível se espalha por todo o ônibus e logo Matilde aparece com a cara mais amarela do mundo e fala para Beto: – Agora é a sua vez!

Beto cria coragem e pensa, eu dou uma respirada funda, prendo ao máximo a respiração e tento fazer um xixi relâmpago. Rapidamente entra no banheiro, fecha e tranca a porta mais rápido ainda. Arreia as calças e tenta acertar o xixi no vaso, mas as curvas da estrada dificultando muito a sua operação, acaba fazendo com que leve mais tempo do que pretendia ou suportaria... Assim que termina já está roxo, quase sem fôlego. Levanta as calças e amarra de qualquer jeito. Seu objetivo era sair o mais rápido possível daquele banheiro, então mete a mão na maçaneta da porta e para sua surpresa a porta não abre, parece emperrada. Tenta mais algumas vezes e não consegue, então só resta a ele duas opções, desmaiar por falta de ar ou respirar aquele odor deixado por sua amiga Matilde.

Enjoado e meio tonto e sem saber o que fazer, ele coloca o nariz pelo minúsculo basculante do banheiro tentando assim respirar um pouco de ar puro, tira o celular de seu jaleco e escreve uma mensagem para Fernanda.

“Socorro amor, estou preso no banheiro, as flores estavam estragadas, depois te explico. Eu... Vc.”

Logo após enviar a mensagem Beto escuta alguém bater na porta. É Matilde que segurando o riso e prendendo a porta pergunta:

    _ Tá tudo bem por aí seu Beto?
    _ Eu tô preso no banheiro! Me tira daqui! Grita Beto.

Matilde já as gargalhadas do lado de fora responde:

    _ Sim seu Beto, eu vou dar um jeito de tirar o senhor daí. Mas se eu conseguir tirar o senhor daí, você vai contar a sua história pra mim?
    _ Ahhhhhhhh! É você que ta prendendo a porta sua sacana? – Esbraveja Beto
    _ O senhor vai me contar ou não?
    _ Tá bom! Tá bom, eu conto, mas abre logo essa porta!

Matilde então tira seu corpinho que travara a porta  deixando-o sair. Beto prendendo o riso olha bem sério para ela e fingindo contrariedade diz:
    _ Tá! Eu conto, mas se me chamar de senhor mais uma vez eu te tranco nesse banheiro o resto da viagem!



Próximo capítulo  " O Almoço " - Aguardem! 



Web Book - Eu...Vc - Capítulo 5 Reviewed by Ricardo Leão on 7:16 PM Rating: 5

3 comentários:

  1. Bom dia, lindo o texto, muito criativo e recheado de humor não deixando a realidade da vida de lado, adorei!!! Parabéns, meu querido escritor!!! Beijos grandes.

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  2. Fernanda diz:
    Viajei neste feriado e somente hj pude ler o cap de sexta, estava ansiosa...tá muito bom e interessante!!!
    Bjs
    Fernanda(Santa Teresa)

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