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Crônicas

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Memória Fotográfica


























O Buraco tem pelo menos cinquenta anos de idade e está localizado no meio da badalada Ipanema na não menos famosa cidade maravilhosa, a tal de Rio de Janeiro. Cidade cosmopolita, marcada por seus inúmeros contrastes, emoldurada por sinuosas montanhas e banhada por suas famosas e democráticas praias.

Aquela sensação de “seja bem vindo”, sente-se ao entrar pela portaria, ao se deparar com um longo tapete vermelho que conduz a uma escada decorada com adornos dourados em seus degraus. Logo após a escada, provavelmente encontrará o “Seu Roberto”- umas das relíquias da casa - há pelo menos quarenta anos recepcionando a todos que entram e certamente sabedor das histórias mais interessantes - colhidas por anos de dedicação a sua profissão.

Como o seu Roberto, habitam neste edifício ímpar de corredores estreitos, sinuosos e confusos, como em um labirinto, outros moradores, que parecem ter nascido e crescido no Buraco ou até quem sabe frequentado a mesma escola primária que ele, pois o grau de intimidade é visivelmente percebido nos encontros casuais sempre interrompidos por uma prosa aqui e outra acolá.

Então a cena era a seguinte - acabara de passar pela porta e caminhava em direção as escadas quando percebi um senhor com as duas mãos na parede olhando atentamente um cartaz pregado na parede, ao mesmo tempo em que uma senhora de idade, com seu cabelo milimetricamente arrumado por litros de spray fixador de cabelos subia as escadas lentamente amparada pela sua bengala e pelo corrimão. Neste momento o senhor solta um comentário em voz alta – “Parece um cartaz de procura-se vivo ou morto!” Em seguida se dirige ao elevador abrindo e segurando educadamente a porta para que a senhora entrasse, mas antes a simpática e sorridente senhora deu uma paradinha rápida, nada mais que dois segundos, para olhar o tal cartaz e só então seguir em direção ao antiquado elevador com suas portas pantográficas. Como permaneceu com a porta aberta olhando em minha direção, educadamente agradeci a gentileza e falei que iria usar as escadas e então seguiram seu caminho.

Uma pequena parada em meu escaninho (caixa de correio) era necessária, as contas já estavam transbordando e precisava esvaziar para que novas chegassem - tentei usar a técnica de deixar o escaninho cheio e quem sabe assim as contas parassem de chegar por falta de espaço...Em vão e com a mão cheia de envelopes, algumas contas, outras endereçadas a antigos moradores e infelizmente agora muitos panfletos de candidatos políticos, que só lembram-se de mim nesta época do ano; segui meu caminho até meu apartamento. Bem, contas e políticos – ô coisa difícil de se livrar!

Outra característica do Buraco talvez pela sua arquitetura diferenciada, pelos seus longos corredores; qualquer som, barulho, espirro, ecoa pelo edifício. Eu mesmo já cansei de desejar saúde pra alguém que espirrou no oitavo andar, e o pior, ele respondeu agradecendo. 

“Saí daqui! Saí daqui! Socorro! Pega ladrão, pega ladrão! Alguém, por favor, me ajude!” Misturados a gritos de: - “Ai, Ai, Ai!” _ Calma minha senhora!”, me fizeram correr até a porta para entender o que estava acontecendo e de onde vinham tais gritos. Minha primeira imagem era de um jovem vestindo um colete e boné azul no final do corredor, com a cabeça abaixada e o braço levantado tentando se proteger das bengaladas que estava levando. Logo corri para salvar a pobre velhinha que apavorada gritava. –” Eu vi a foto dele! Bandido! Pega ladrão, pega ladrão!” Nada me restou além de sair correndo pelo corredor e pular em cima daquele homem que estava importunando a pobre senhora. Coloquei-me entre os dois, agarrando o jovem e o afastando da porta da senhora e logo pedi: _ “Calma! Calma gente! O que esta acontecendo aqui?”. Nesse momento era bengalada pra todo lado, foi quando reparei que pendurado no bolso do colete do jovem estava escrito: “Valdo, Recenseador, IBGE – Censo 2010 “. Virei-me, então, para a senhora que já estava pronta para desferir uma nova bengalada em mim e disse: _”Calma senhora, esse é o rapaz do censo 2010, a senhora já viu na televisão que estão fazendo um censo no Brasil?”. Ela parou por uns segundos, ficou analisando a situação, abaixou lentamente sua bengala e disse: _” Aí meu filho! Desculpe-me, é que o moço do 704 disse que você era um ladrão “. E completou:” _Entra meu filho, entra! Você aceita um chazinho com uns biscoitinhos deliciosos?”

*Este texto é em homenagem a seu Roberto, que o senhor se recupere prontamente e volte a nos emprestar sua simpatia.
Memória Fotográfica Reviewed by Ricardo Leão on 10:01 PM Rating: 5

Um comentário:

  1. já pensou em escrever para comédia, você é muito agil nas palavras, estou cada vez mais sua fã! Abraços

    Maura

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