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Crônicas

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A Amiga e o Furúnculo












 
“Amigo é coisa para se guardar. Debaixo de sete chaves. Dentro do coração. Assim falava a canção.” E assim começa a canção do meu amigo “Bituca”, que me acompanhou durante os melhores anos da minha juventude. Mas em tempos de internet onde guardar os amigos virtuais? No disco rígido do seu computador? Um belo dia, resolvi prestar atenção à minha lista de contatos e olhando atentamente aos nomes percebi que tinha mais amigos virtuais do que reais, o que é um paradoxo, pois o virtual existe, está lá em carne osso, respira, digita, tem uma cara, participa do seu dia a dia. Bem, deixemos esse assunto para outro dia, um outro “post”. Hoje quero mesmo é contar o dia em que uma amiga virtual virou real, falando assim parece que ela se materializou bem na minha frente né? Não sei, mas que esse dia foi surreal, isso foi!

Então...
 

Como bom anfitrião estava na rodoviária esperando a amiga virtual se materializar. Estranhamente ela apareceu da porta do banheiro feminino, mas posso jurar que não tirei os olhos da porta do suposto ônibus que ela deveria chegar. O combinado era de pegarmos um táxi e seguirmos em direção ao centro da cidade, mais exatamente o prédio da receita federal para que ela passasse por uma perícia médica, pois havia passado em um concurso público.

Chegando lá, a primeira sensação ao entrar naquele prédio é que estava voltando no tempo, tudo antigo com uma arquitetura rica e imponente, realmente uma beleza. Depois dos serviços protocolares normais para se entrar em um lugar destes, seguimos para nosso destino, a sala 819. Todos devidamente acomodados e espremidos no elevador, acompanhados por um silêncio mórbido. Dei uma olhada ao redor procurando por uma placa; um aviso onde tivesse escrito “silêncio, por favor,” não entendo por que todo mundo fica calado em elevadores. Por fim o ascensorista se cansou de esperar ninguém, fechou a porta nos “elevando” ao nosso destino.

De novo fui transportado no tempo ao sair do elevador, encontrei corredores enormes decorados com portas largas e negras em madeira trabalhada. Uma escada enorme de ferro que atravessava todos os andares dividindo o hall, resolvemos seguir pelo lado direito à procura da sala. O tempo realmente parecia ter parado naquele lugar, pois ao caminhar através dos corredores envelhecidos pela história reparei que existiam vários relógios que adornavam as paredes e que todos eles estavam parados e marcando horários diferentes, o que me distraiu a atenção para a numeração das portas. Quando voltei minha atenção estávamos em frente à porta 816, então andamos mais um pouco e a porta seguinte tinha o número 818, já desconfiado e achando aquilo muito estranho e não para minha surpresa, a próxima e última porta era a de número 820. Então me virei para minha amiga recém materializada e perguntei: – Ué, onde foi parar a porta 819? Ela olha para mim e diz: – Ah! Eu li lá atrás que aqui era a ala de números pares! Não precisa imaginar a minha cara né? Como também não precisa imaginar que cor de cabelo tem a minha amiga! Mas para não perder a chance fiz uma perguntinha primária a ela. – 819 é um numero par ou ímpar? E completei. – você realmente passou neste concurso?

Desfeito o mal entendido enfim estávamos sentados esperando a vez de sermos atendidos, nesse meio tempo ela preenchia um formulário daqueles com as perguntas mais absurdas, tipo: “Você tem ou já teve algum distúrbio metal?” Será que alguém um dia já respondeu sim?

Bem, formulário preenchido e entregue, logo não demora e minha amiga é chamada para ser atendida e meu postei na ante-sala a espera de seu retorno. Então foi quando aquela pequena vontade de ir ao banheiro foi crescendo, crescendo e me absorvendo. Perna cruzada para um lado, e para o outro, pensei em tudo pra tirar a idéia de fazer xixi da cabeça até que não aguentei mais e perguntei a nada amistosa recepcionista onde era o banheiro mais próximo. Muito educadamente ela apenas levantou seu braço e apontou a direção. Gentilmente agradeci sua indicação e segui por um corredor estreito cheio de pequenas salas feitas com divisórias. Pra variar a porta do banheiro era última, no final do corredor. Se não tivesse tão apertado aposto que seria a primeira à esquerda. Durante o percurso reparei que minha amiga esta sentada em uma sala sozinha a espera de ser chamada. Aliviada a tensão, voltando relaxado, com aquela carinha de feliz pelo corredor resolvi entrar e fazer companhia a minha amiga. Batemos um curto papo, pois logo uma voz gritava por seu nome. Ela levantou e sumiu pelos corredores. Fiquei ali assistindo televisão.  Pouco tempo depois notei uma senhora com um andar doloroso entrando na sala bem devagarzinho, e calmamente senta-se muito próximo a mim. O curioso foi que ela não sentou no assento em si e sim no braço que dividia as cadeiras, e em sua cara uma expressão de dor.

Trajava uma sandália de dedo, uma saia curta jeans e uma blusa vermelha. Pele morena, cabelos negros e grisalhos amarrados com um elástico. Logo na primeira cruzada de olhos ela começou a falar que estava ali para conseguir um atestado, e que tinha chegado atrasada, pois o atendimento para aquele serviço era até as três da tarde, mas como vinha de muito longe, tinha pego uma van, depois um trem e em seguida um ônibus, pediu que a atendessem, pois estava com muita dor e não queria ter que voltar na segunda-feira. Neste momento ela passa a mão na virilha e faz uma cara de dor, por instinto natural meus olhos seguiram a sua mão, depois retornando aos seus olhos. Pronto! Aquela segunda cruzada de olhos foi fatal. Ela calmamente olha dentro dos meus olhos e diz: – Estou com um furúnculo entre os meus lábios e minha virilha! – passando a mão em cima do local. Rapidamente olhei para um lado e para o outro e percebi que apenas nós dois estávamos naquela sala deserta. Subitamente um pensamento me veio à cabeça. “Ai Meu Deus, ela vai mostrar esse furúnculo pra mim”, comecei a entrar em pânico enquanto ela ia me descrevendo como o furúnculo apareceu e foi crescendo. Minha agonia só aumentava vendo àquela senhora sentada se equilibrando no braço dos bancos e passando a mão em seu furúnculo. Agora pedia ao meu anjo da guarda que me protegesse daquele momento e que minha amiga terminasse logo de ser atendida antes que o pior acontecesse. Então resolvi mudar o assunto da prosa. Comecei a falar mal da saúde no Brasil, que não deveriam deixar pessoas assim a espera por atendimento, depois comecei a falar mal do transporte, que era um absurdo ela ter que pegar três conduções para poder ter o tal atestado e que o governo deveria ter postos distribuídos em vários bairros da cidade, depois falei mal do salário dos servidores públicos, que eram mal remunerados. Mas no momento que puxei o ar para respirar e continuar falando de outras coisas que não fossem relacionadas a furúnculos, ela passa a mão na saia como se fosse levantar e justamente nessa hora, passa alguém no corredor. Eu dou um pulo da cadeira e vou pedir que atendam aquela pobre criatura que estava com dor e só então descubro de que se tratava apenas de uma servente. Agora totalmente sem esperanças, só restava retornar a sala deserta e aceitar o meu destino. Eu ia ser apresentado ao furúnculo. Lentamente caminhei e me sentei à espera da minha sina. Outra cruzada de olhares. Ela estava sorrindo pra mim, então pensei – To ferrado! Ela agradeceu a minha preocupação com o estado dela, disse que era um homem muito gentil e em seguida perguntou se era casado.

Já com o olhar cabisbaixo, respondi que não era casado só estava ali acompanhando uma amiga e pensei – Chegou a hora Ricardo, seja forte! Foi quando de repente aquela voz meio que angelical surgiu naquele momento surreal e disse: – Vamos embora Ricardo, já terminei aqui. Levantei em uma fração de segundo com um sorriso estampado na cara. Direcionei-me a senhora e disse. “Bem infelizmente tenho que ir; adorei nossa prosa, desejo que a senhora se recupero logo e uma boa sorte para o seu furúnculo”.


E para minha mais nova amiga real, só me restou dizer às palavras que meu grande amigo “Bituca” cantou. “Pois seja o que vier, venha o que vier. Qualquer dia, amigo, eu volto. A te encontrar. Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.”





A Amiga e o Furúnculo Reviewed by Ricardo Leão on 4:17 AM Rating: 5

4 comentários:

  1. Tá bom, nem vou brigar com vc pela referência a cor dos cabelos e pela tirada de sarro quanto a numeração das portas, que inclusive, vc tbém tinha visto, eehehehe.
    beijo angelical da sua amiga real

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  2. Ah, e esclareça aí que essa foto não é da sua amiga que passou no concurso e sim, parecida com a amiga do furúnculo!

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  3. Ric,

    Chorei de rir ,muito bom,Pena que a senhora não chegou a te mostrar o furúnculo... rsrsrs

    Paula Lobo

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  4. HAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHAAHAHAHAHAHA...Há muito tempo não lia algo tão interessante e engraçado quanto isso!!! Pude "ver" as portas, a sala, o furúnculo ohhh, e até ouvir a voz angelizal da tua amiga real! PARABÉNS! É de longe, sem dúvida, o MELHOR blog que já visitei! Até copiei "coisinhas" e postei no facebook, mas claro, os créditos são sempre teus. (Michele Minuzzo)

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