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Crônicas

Crônicas
teste

Com quantas mulheres se faz um homem?















 ...então Deus fez a mulher, adormeceu Adão em um sono profundo e indolor, retirou-lhe uma de suas costelas e transformou aquela fração de sua criação em um ser que até os dias de hoje nós homens procuramos compreender. O que ele não contou pra ninguém foi que ele dividiu aquela costela em vários pedaços de diversos tamanhos e importâncias e as espalhou pelo tempo. Ao despertar e sentir a falta de um pedaço de si coube a adão fazer aquilo que qualquer um faria quando perde algo que lhe pertence – procurar! Olhou para um lado viu uma maçã, olhou para o outro se deparou com aquele ser esplendoroso. Sabe como é cidade pequena, nada pra fazer, papo vem, papo vai, acabou comendo a maçã e a Eva. Os anos se passaram e Adão já não andava muito feliz com seu criador, entediado com a vida na cidade pequena e cansado de comer maçãs, pegou seus inúmeros filhos virou para Eva e disse – Arrume as malas, vamos sair do Éden e ir para cidade grande...

...milhares de anos depois, antevéspera de natal, nasce um menino em uma madrugada quente dos trópicos. Um menino comum, igual à maioria dos outros que já nascem com o instinto natural da procura pelo que lhe foi tirado no inicio dos tempos. Menino de sorte esse, pois logo ao nascer já encontrou o maior pedaço de sua costela. Ele a chamou de mãe. Encaixava perfeitamente na base de sua vida. Trazia segurança e conforto. O alimentaria e protegeria por um longo tempo, lhe ensinaria a dar os primeiros passos e os caminhos existentes na vida. Cuidaria de sua saúde e o protegeria contra todos os males do mundo. Ensinaria o significado do amor incondicional. Logo ali ao lado, bem próximo da mãe, ele encontrou outro pedaço que chamou de avó. Ali encontrou a ternura, o colo acolhedor, as palavras de uma vida cheia de experiências e muitas, muitas histórias para contar alem da paciência para responder a todas as suas perguntas. Descobriu que o bolo formigueiro não era feito de formigas e que com uma boa dose de dengo conseguiria tudo o que desejava.

Um Belo dia, ao acordar olhou para o lado e descobriu outro pedaço, só que desta vez ele nem pode dar nome, esse pedaço já veio com o nome e sobrenome, sua irmã. Sem direito a escolhas ele teria que aprender viver com alguém que era tão parecido com ele, mas ao mesmo tempo tão diferente. Aprenderia a amar uma pessoa que implicaria com ele por anos, testaria todos os limites de sua paciência, que lhe daria o papel de cachorro em sua peça de teatro, que lhe trancaria dentro da geladeira com o pretexto de um experimento científico e mesmo assim sentiria saudades quando a distância os separasse. Com ela aprenderia o sentido da palavra cumplicidade, a guardar segredos mais secretos e também o que se podia conseguir com uma chantagenzinha básica, mas com ela descobriria o valor que tem a amizade, uma amizade para a vida toda.

Tudo transcorria bem, os anos se passaram e ele se tornará um adolescente comum igual a vários outros que conhecia em sua escola até que no intervalo de aula, na hora do recreio, ele escuta uma doce voz perguntando – oi, tudo bem com você? Posso sentar ao seu lado? Mesmo antes de ter tempo de responder, ela já estava sentada na mureta ao seu lado, então colocou a mão dentro de sua mochila e tirou uma maçã e ofereceu a ele. Pronto de repente o mundo ficou pequeno, resumido apenas a eles dois e aquela maçã. Olhou para um lado, olhou para o outro, e descobriu que existiam mais pedaços de costelas a serem descobertas. Ele a chamou de meu primeiro amor, mas só comeu a maçã.  Com ela descobriu o sabor do primeiro beijo, a escrever cartas de amor, a passar horas ao telefone só falando eu te amo, a andar de mãos dadas, a querer dividir os bons momentos da vida com alguém, descobriu que os cinemas foram feitos pra namorar e que dançar coladinho era a melhor coisa do mundo. Aprendeu que a vida daquele dia em diante só teria graça se vivida a dois. Mas aquele pedacinho de costela ainda lhe traria novos aprendizados. Aprendeu que o destino de sua vida ainda não estava em suas mãos, que o mesmo amor que lhe trouxe tantos sorrisos agora lhe oferecia lágrimas, aprendeu a dor da perda e a entender que a distância e o tempo cicatrizam as feridas, mas não apagam as lembranças. Que deveria levar consigo somente os momentos bons e que o primeiro amor agente nunca esquece. O tempo seguinte lhe ensinou que o vazio deixado pela sua perda era muito maior que a dimensão exata do que havia passado então, lá fora em algum lugar do mundo deveria existir algum pedaço de costela que preenchesse este vazio que agora carregava consigo. 

Agora já quase um adulto descobrira que pelos caminhos que percorrera havia encontrado alguns pedaços espalhados pelas ruas de seu destino, e o melhor que poderia fazer era aproveitar o que de bom cada pedaço lhe oferecia. Aprender com suas escolhas, seus erros e acertos, a final havia um propósito maior, preencher aquele vazio mesmo que fosse de pedacinho em pedacinho.

O velho mundo era seu quintal nesse momento e o universo seu regente. No lugar mais improvável, no dia mais incomum, aquela voz tão familiar se destacava no meio de tantas outras naquela torre de babel. Olhou para um lado, olhou para o outro e no meio de tantas caras desconhecidas aquela com olhar angelical vestida com um suéter vermelho cor de maçã tomou seu coração de assalto com apenas um sorriso. Estava ali, bem na sua frente o que tanto procurava. O pedaço de costela que faltava em sua vida. Ele a chamou de o amor da sua vida. Com ela aprendeu a intensidade de uma paixão, descobriu que dois corpos devem ocupar o mesmo espaço e que vinte quatro horas são poucas quando se está amando. Descobriu a força de um carinho, a intensidade de um olhar e o poder de um simples toque. E que os arrepios vem da alma. Aprendeu a sonhar a dois, desejar a dois, delirar a dois, aprendeu a fazer “amor”. Mas com a mesma força que o universo os uniu em uma louca paixão, agora os separava. Ela voltara pra casa deixando para trás um novo amor no velho mundo e entre eles um oceano de esperanças e sonhos. Ele então resolveu mudar seu nome e começou a chamá-la de amor platônico.

De volta pra casa em busca de suas raízes os dias foram passando. Dentro de si já não restava mais dúvidas e sim a certezas, que lá em algum reino tão tão tão distante existiria tal costela que completaria sua vida. Sabe como é cidade pequena, não importa aonde você for procurar a maçã o sabor vai ser sempre o mesmo, então em um dia chuvoso ele acordou olhou para o lado não viu ninguém, olhou para o outro não viu a maçã e pensou – hora de arrumar as malas e ir para a cidade grande. Novos ares, possibilidades infinitas do tamanho da vista do mar que tinha da janela de seu apartamento. Toca o telefone, um grande amigo pedindo como sempre um grande favor. Carona para um aniversário. Destino? Coincidência? Quem pode afirmar? Mas no momento em ele pôs os olhos naquela boca vermelha cor de maçã emoldurada pelo sorriso mais generoso que recebera na vida, teve a certeza que sua busca tinha chegado ao fim.  

Ele a tomou com sua e a chamou simplesmente de amor; amor para toda vida. Com ela redescobriu as cores ao nascer do sol, os sabores dos sorvetes de frutas no fim de tarde e o brilho do olhar nas noites umedecidas pelo prazer de seus corpos. Aprendeu que já não era mais um todo e sim uma metade, que todos os caminhos deveriam ser partilhados, que dois agora seriam apenas um. Descobriu o valor da saudade, a contar as horas do dia e a felicidade nos reencontros. Aprendeu que existe um lado da cama pra dormir, que há espaço suficiente pra mais uma escova de dente, a dividir sua chinela de dedo e que suas camisetas ficam melhores nela do que nele. Redescobriu como é bom ser criança novamente, a brincar de pega-pega, a se lambuzar com cobertura de chocolate, que chantilly não combina só com morangos e que brincar de médico agora era muito mais interessante. Aprendeu que dormir de conchinha é muito bom, mas que acordar e descobrir entre os lençóis desarrumados a razão se seu sorriso matinal era muito melhor, que tomar café com carinho na cama a dois é muito melhor do que o café preto sozinho na cozinha e os dias sem ela eram em tons de cinza.

Um Belo dia acordou, olhou para um lado e viu sua esposa, olhou para o outro e não viu a maçã. – Nossa como é bom fazer amor de manhã! Com ela descobriu a cumplicidade de uma vida a dois, que os sonhos eram mais coloridos quando sonhados a dois, que a amizade era o alimento do amor, que a saudade a fonte dos desejos e que a sinceridade a garantia da felicidade. Aprendeu a admirar suas qualidades, a entender seus defeitos e que conversando agente se entende. Descobriu que as mulheres são como a lua, lindas, iluminadas, encantadoras, admiradas, únicas aos olhos de quem as amam. Mas como a lua, elas tem suas fases e que cabia a ele aprender o significado e se encantar com as boas e respeitar as más. Aprendeu que a vida é feita de pequenas receitas escritas no dia a dia, mas que só teriam um sabor de longevidade quando escrita a dois. Aprendeu a apreciar as demonstrações de carinho e afeto nas coisas simples do dia a dia, na coca-cola zero sempre com muito gelo, na macarronada de atum de todos os domingos, no cuidado com suas roupas e que a rotina era uma oportunidade de fazer sempre a mesma coisa de modo um modo diferente. Descobriu que apenas com os anos as palavras são compreendidas com um olhar, que o amor também se encontra na presença do silêncio e que as raízes daquela relação já sustentariam as ventanias que o destino colocasse em seu caminho. Aprendeu que amar a mesma mulher todos os dias, todos os meses, todos os anos era como amar a si próprio e que sua felicidade de nada valia sem a dela. Era a costela que lhe faltava e que não poderia mais viver sem ela.
Em uma segunda-feira mágica, decorada com pétalas de rosas e frases de amor espalhadas em folhas de papéis iluminadas por velas vermelhas cor de maçã, eles celebraram em forma de amor eterno o encontro de duas vidas que agora se tornaram uma só. 

Algum tempo depois... Um belo dia acordou, olhou para um lado e viu sua esposa, olhou para o outro e viu um serzinho bem pequeno, toda vestida de rosa com as bochechas avermelhadas cor de maçã. Instintivamente levou a mão a sua costela, mas pra sua surpresa ela estava lá. Tomado por uma emoção indescritível seus olhos encheram de lágrimas, e em seu coração havia agora uma espaço enorme. Tentava entender como poderia existir um amor grande e intenso por alguém que acabará de conhecer. Foi quando entendeu o espaço em seu coração e logo sentiu a presença de Deus em si, ao entender que o poder daquele amor tinha a capacidade de gerar uma nova costela, que chamou de filha. Começou a pensar em todas as costelas que encontrou pela sua vida, da sua mãe que lhe ensinará os caminhos da vida que agora se chamaria avó; das muitas histórias de vida de sua avó que agora se chamaria bisavó; da amizade de sua irmã que agora de chamaria tia; do andar de mãos dadas com seu primeiro amor, que agora estavam sendo agarradas com toda força por sua filha; lembrou da sua paixão do velho mundo onde aprendeu a sonhar a dois e a partir deste dia os sonhos seriam a três. Quando voltou seu olhar para o outro lado e encontrou aquele mesmo sorriso generoso emoldurado pela aquela boca cor de maçã, descobriu que agora já não eram mais um casal, tinham se tornado uma família, eu seu nome não era mais esposa; agora se chamava mãe. Pensou em tudo que descobriu e aprendeu com as mulheres que passaram pela sua vida, e se sentindo o mais ignorante dos homens virou-se para sua mulher e perguntou.
– E agora? Como segura ela?
Com quantas mulheres se faz um homem? Reviewed by Ricardo Leão on 4:49 PM Rating: 5

6 comentários:

  1. Ricardo, ficou muito, muito, muito, muito booom! Adorei!

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  2. tà vendo Ricardo ainda estou a procura de uma costela pra completar a minha vida, certo dia me declarei pra uma pessoa que nunca o vi mas levei um fora mas avida è assim mesmo hoje sou amiga dele e ele sabe do que estou falando kkkkk, mas adoro esse meu amigo lindo te adoro danado um cheiro.

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  3. Rich, eu sinceramente não acredito que se faz um homem com uma ou várias melheres, acredito que as pessoas se fazem umas para outras. Na minha apinião deve ser um exercicio diário a busca do companheirismo, da cumplicidade e do amor! você por exemplo pode se quantificar? como? pode me dizer de quantas mulheres se faz um Ricardo? dificil não é? embora a sensibilidade feminia e astucia agunçada deste ser seja de fato de se admirar a capacidade que tem os homens de encantar, de impor sua fortaleza é simplesmente magnífica e isso se aplica a você, ok!!!! beijos no seu coração... Gê

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  4. Gostei do "descobriu que chantilly não combina só com morangos"... kkkk

    beijo

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  5. Simplesmente lindo... poético e envolvente!!!

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  6. Ricardo,

    Me identifiquei demais com o texto,é uma relexão de vida...parabéns!



    B

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