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Crônicas

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Uma história de amor - Parte um


A vida sempre lhe pareceu normal, como a de qualquer pessoa que se esbarra por aí, talvez com um pouco mais de sorte que alguns afortunados. Cresceu aqui e acolá devido a separação de seus pais, cultivou bons amigos em seu tempo de escola, namorou bastante, casou-se com a mulher que se apaixonara nos primeiros cinco minutos em que conhecera, com ela teve seus filhos. Descobriu o amor de pai nos olhos de seus filhos. Mas existia algo dentro de si dizendo, ainda não acabou, pensamento recorrente nas noites escuras; Siga em frente!... mas como? Afinal, tinha ali uma família, um ofício, um lar! Algo que não se descarta assim... O casamento durou uma história bonita de vida, o amor havia se transformado em admiração, respeito e amizade, dali surgiu uma grande parceria. E mesmo sabendo da dor que lhe aguardava se atirou, pegou seu barquinho branco e começou a navegar, sem ao certo saber a direção exata, sem bússola para lhe nortear, apenas guiado por aquele instinto de que ainda não acabou... Passaram-se dias, que viraram semanas. Os meses somados em anos, a ausência dos filhos era a única companhia certa. Foi quando sentado em um momento de terra firme, perdia-se em pensamentos olhando para aquele mar sem fim, sem pistas, sem rumo, tudo que tinham eram um punhado de palavras soltas em sua rede. Memória... ainda lembrava do exato momento que seus lábios encostaram nos dela, ainda sentia vivo o arrepio daquele corpo nu ao tocar o seu pela primeira vez... Memória... ela usava um vestido verde com detalhes em flores amarelas, usava um tenis All-Star caqui com meias de menina, com pompons que lhe pulavam o calcanhar... Memória, afinal como explicar a certeza daquele pertencimento ao corpo estranho, aquela sensação de estar reencontrando alguém muito especial?  - Mas você não é barco, você é oceano, o que está fazendo aqui ancorado? Disse ela. - Como assim, já não sou um menino, tenho uma vida escrita em meu destino e agora está me dizendo para esquecer tudo que me define, que traduz minha vida e começar de novo?  Seguir por uma rota que eu não nunca imaginei navegar? - Me de a mão, eu lhe mostro o caminho, confie em mim, e para provar minha fé vou junto com você, mas tenho que avisar uma coisa, tenho muito medo de agua, pois não sei nadar. E assim ele seguiu barquinho procurando um virar oceano, sem muito entender como... A cada porto, uma parada, uma experiência adquirida... uma conquista, uma descoberta. Seguiam desbravando novos mares, provando sabores e amores... enfrentaram tempestades impensáveis, deliciavam-se nos dias ensolarados, nos dias chuvosos reconfortavam-se em longas conversas, e meio sem perceber ou precisar o momento exato... mergulhados em uma sintonia tão profunda que suas jornadas eram guiadas  sem nenhuma palavra ser dita, então tornaram-se um só, tornaram-se um amor e memória. Embebedados por aquela bebida sagrada, seguiam indestrutíveis, atrelados a eternidade, mas sem perceber que a maior prova de amor ainda estava por vir, pois a vida também é feita de coisas ruins também, é a natureza em seu equilíbrio natural. Sorrateiramente, com o silêncio exigido, despercebida, uma sombra veio crescendo no fundo do mar, tornando-se maior com os dias e cada vez mais próxima do barquinho, mais um intruso ignorado diante das conquistas alcançadas.  Sem precisar quando e como, aquela sombra se transformára em um monstro desconhecido, espalhando seus tentáculos sobre seus sonhos, escurecendo tantas certezas, transformando o antes luz em agora sombras.  Silenciosamente dragou seu amor para o fundo daquele oceano, escurecendo o amanhã. Lutaram, lutaram muito, como se estivessem perdendo a si mesmos, inúmeras foram as batalhas, as tentativas de trazê-la de volta ao barquinho, mas cada tentativa em vão, uma nova angústia, a sensação de impotência e frustação impingidas por aquela força maior. Exauridos continuavam tentando, pareciam não ter mais forças tentar... ele não queria deixar seu amor partir, e seu amor não queria ir... verdades denunciada no olhar amedrontado de quem não sabia nadar, mas aquilo se repetia, e repetia, e repetia. E com o tempo, cada vez menos ela aparecia na superfície... seus mergulhos se tornavam mais profundos, duravam eternidades. Se descobrimos o que é o amor na ausência quando estamos longe do outro, como mensurar aquilo que era mais que amor, era também memória? Por inúmeras vezes não acreditava que ela voltaria, afinal por quanto tempo ele poderia aguentar desorientado no meio daquele oceano sem horizontes? Por vezes tentava afastar-se, mas em vão retornava, pois seu coração não deixava, a angustia denunciava seu querer, então só lhe restava ficar ali e esperar... e foi o que fez... Um ano e meio se passou, havia pelo menos dois meses sem nenhum sinal, nada, apenas o silêncio denunciava sua ausência. Chegava a data em que completariam aniversário... pressentindo seu querer, sentindo seu coração apertado, conectados em alma, quando ele menos esperava ela surgiu como antes, tinha reunido todas as suas forças para mais uma tentativa e subiu a superfície em direção ao seu amado, o abraçou demoradamente, olhou no fundo dos seus olhos, contou-lhe que seus sonhos lhe pertenciam, tocou-lhe a boca com carinho, beijou seus lábios apaixonadamente, se entregaram ao amor, ao mesmo arrepio que lhes conduziam ao êxtase, e então ela partiu... O desespero tomou conta de seu corpo ainda anestesiado, tentou de todas as maneiras segurá-la em seus braços, começou a falar sobre os meios para trazê-la de volta, para que assim pudessem continuar a jornada, mostrará todo o amor que vinha guardando através dos meses de ausência, contou sobre suas novas conquistas, tentava convencê-la que encontrariam o caminho de volta, que era tempo de terra firme, e por onde navegar... mas não adiantou, ela se foi, voltando lentamente para o fundo do mar até desaparecer aos seus olhos, lhe deixando apenas o silêncio. Ele não conseguia entender o porque... foi quando seguindo novamente seus instintos, subiu na ponta do barquinho e deixou seu corpo cair ao mar, não tinha nada em seus pensamentos, apensa se permitiu, se entregou, esperando ser aquele o último gesto de amor e assim encontrar as respostas para suas dúvidas. A escuridão tomou conta de seus pensamentos, enquanto o barquinho lentamente se escondia no horizonte, respirou fundo algumas vezes enquanto seus olhos adormeciam, foi quando se viu bem pequeno ao longe, assistia seu corpo flutuar naquele infinito azul. O silêncio já não incomodava mais, uma sensação era de paz e inundava seu coração, sua alma fora tomada por uma tranquilidade imensurável. Seus olhos abriram-se lentamente como em um longo despertar, o sol quente em seu rosto já não o cegava mais, a angústia eterna do balanço do mar agora era se fazia ninho, aconchego. Foi então que ele percebeu que havia se transformado em oceano, e assim, se unindo a ela, enfim agora ela pertencia a ele, e ele a ela. Hoje eles são oceano! Amor eterno! Uma memória novamente.
Uma história de amor - Parte um Reviewed by Ricardo Leão on 1:15 PM Rating: 5

Um comentário:

  1. Gostoso como a brisa morna que vem do oceano nos dias quentes de verão...

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