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Crônicas

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A flor que nunca me deram


Aninha espiava pelo canto da janela escondida atrás da cortina do seu quarto o movimento das pessoas que passavam em frente a sua casa. Tinha em si a angústia da expectativa. O relógio antigo pendurado na parede contava os segundos feito horas, e as horas então? Pareciam dias!

Aquele não era um dia qualquer, o sol que agora começara a entrar por entre as cortinas, iluminava o vestido que havia separado de véspera e delicadamente repousava na cama ao seu lado. Sentia fome, mas se alimentava da espera, não queria perder aquele momento tão aguardado.

O cheiro sedutor do café matinal entrava por debaixo da porta e o convite amável da sua mãe a levou de súbito a descer as escadas em direção à cozinha, resgatar aquela xícara de café já posta sobre a mesa, agarrar uma fatia de bolo e voltar correndo para sua vigília, para sua janela. Agora faltava pouco!

Espichava os olhos até os limites da esquina esperando aquele momento acontecer, esperava aquela bicicleta contornar a esquina da sua casa carregando a resposta para as suas dúvidas, trazendo o alívio à angústia acumulada pelo peso das horas.

Alguns minutos depois, aquela tão esperada bicicleta contornava a esquina de sua casa, acelerando a batida do seu coração a cada metro que se aproximava da sua casa. Uma rápida mordida na fatia de bolo, um pulo sobre a cama, Aninha desce as escadas passa rapidamente pelos olhos atentos da sua mãe em direção à porta da rua que revelaria enfim a sua espera. Lentamente coloca a mão na maçaneta da porta abrindo com toda delicadeza, mas apenas alguns centímetros, o suficiente para saciar sua aflição.

O mensageiro trazia o buquê de rosas mais lindo que já tinha visto, arrancando-lhe um sorriso discreto, suficiente para encher suas expectativas de sonhos. Ele toca a campainha! “Por que de tanta demora? Abre logo essa porta!” – fala baixinho. O Mensageiro deixa as rosas na soleira da porta e vai embora. Aninha fecha a porta com pesar, mais uma vez ela não recebera as flores. O relógio parecia estar contra ela, apressada pela mãe que a avisa que chegarão atrasadas na escola. Pede que suba rapidamente, coloque seu vestido e a encontre no carro. “Vamos mocinha, não quer chegar atrasada na escola no dia do seu aniversário? Quer?”

- Por que será que ela nunca aceita as flores? – pergunta Aninha cabisbaixa.
- Não sei minha filha, o perdão não é algo tão simples de se conceder.
- Não entendo porque ela as joga no lixo e nem lê o cartão.
- Talvez por não querer mais essa relação.
- Sabe o que eu acho mãe?
- Não, o que minha filha?
- Eu não gostaria que um estranho em uma bicicleta entregasse meu presente de aniversário.

Espiava pelo canto da janela escondida atrás da cortina da sala o movimento das pessoas que passavam em frente a sua casa, tinha em si a angústia da solidão. O relógio na estante junto ao porta retrato contava os segundos feito horas, e as horas então? Pareciam dias!

Lentamente coloca a mão na maçaneta da porta abrindo com toda delicadeza, se abaixa pega o buquê de rosas e abraçando-o caminha até a lata de lixo, não há ninguém na rua, retira apenas uma rosa do buquê, arrancando-lhe uma discreta lágrima, suficiente para encher suas expectativas de sonhos. “Por que de tanta demora?” – fala baixinho.





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A flor que nunca me deram Reviewed by Ricardo Leão on 1:01 PM Rating: 5

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