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Crônicas

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Amor com Ovomaltine



















Um final de semana, um dia lindo e ensolarado, aquele calor agradável e convidativo para um passeio ao ar livre. Nesses dias as praças ficam cheias. A turma de meninos leva sua bola surrada para jogar aquela pelada, as babás passeiam com os bebês enquanto as mães fofocam no salão de beleza, tentando descobrir como perder aqueles famosos três quilos. Os velhinhos ocupam todas as mesas em um emocionante jogo de damas enquanto comentam sobre a doença do momento, os cachorros, pobres coitados, correm desesperados fugindo das dezenas de criancinhas que tentam de todas as formas mostrarem seu afeto e carinho. E o que seriam das praças sem seus famosos bancos? Postados em baixo das generosas árvores, que lhes cedem suas sombras para que os leitores de jornais se atualizem com as notícias do dia e acolhem os homens solitários, que por ali sentam para pensar em seus problemas. Guardam todos os segredos irreveláveis contados ao pé do ouvido entre as duas melhores amigas, presenciam os inúmeros casais de namorados que por ali sentaram e declamaram as mais sinceras juras de amor seladas com beijos sabor de fruta da estação...

...sentados naquele banco, debaixo da mais frondosa árvore, ao lado daquele busto solitário desconhecido pela maioria, Priscila e Marcelo dividem um copo de milk-shake de ovomaltine. Enquanto Marcelo fuçava em seu celular novo, ela leva o copo em direção à boca para que ele tome um pouco, em seguida, limpa o cantinho da boca que ficou sujo e aproveita para tomar um gole. Ao voltar a oferecer a Marcelo mais um pouco, ele responde com um tom de frieza. “Calma, eu ainda nem terminei o que você acabou de me dar”.

Priscila sorri, desconversa e diz: ─ Amor, o que seria do céu sem as estrelas? O que seria do mar sem as ondas? O que seria das flores sem as abelhas? O que seria do céu sem as nuvens? O que seria dos amantes sem a lua? Sabe amor, tem certas coisas na vida que parecem tão simples, comuns, que chegam a passar desapercebidas e acabamos nem dando o valor real a elas. Muitas vezes só as valorizamos quando perdemos. Por que será que deixamos isso acontecer?

Marcelo responde: ─ Não adianta desconversar Priscila, você está querendo mudar de assunto, eu ainda estou muito chateado porque seu ex-namorado fica o tempo todo atrás de você, mandando mensagens, fuçando sua vida, é como se ele sempre estivesse entre nós dois. Poxa! Você tem que encontrar uma maneira de acabar com isso!

Priscila mantendo a calma olha para Marcelo e diz: ─ Amor olha pra mim... Por que ao invés de você ficar acreditando no que você não vê, não começa a acreditar no que você vê? Por que é tão difícil acreditar no que o seu coração sente? Entenda que toda vez que te de digo “eu te amo”, estou reafirmando meu compromisso com o homem que “eu” quero ao meu lado.

Marcelo pensa um pouco e responde: ─ Pois é, justamente sobre isso que estou falando, sempre estou vendo este carinha entrando e saindo de nossas vidas e não consigo entender a razão pelo qual essa situação ainda continua, eu só posso acreditar que ainda existe alguma ligação entre vocês. Sabe Priscila, há uma diferença entre uma porta encostada e uma porta fechada e acho que pra ele a porta parece estar encostada.

Priscila responde sem pensar: ─ Olha só! Não posso ser responsabilizada pelas ações das outras pessoas, tão pouco pelos sentimentos dele. O que estou tentando fazer você enxergar é que estamos colocando coisas entre nós sem a menor necessidade e por isso estamos nos afastando, e apenas por isto eu e você somos responsáveis. O amor é simples, fundamentado no que vivemos em nosso dia a dia, é com estas coisas que devemos preencher nossas vidas e deixar o resto do lado de fora da porta, não importando se ela está aberta, encostada ou fechada. O que importa é que lá dentro só haja duas pessoas ─ eu e você!

Nesta hora uma mensagem chega ao celular de Priscila que tranquilamente o retira de sua bolsa e começa a ler a mensagem, vigiada de perto pelos olhos desconfiados de Marcelo. Ao final da mensagem Priscila solta um leve sorriso, o suficiente para Marcelo esbravejar:

─ Tá vendo? Viu só? Ele tá presente o tempo todo! Eu já não aguento mais esta situação e ainda por cima você acha graça disso tudo! Deve se sentir muito bem sendo cortejada por dois homens, não é mesmo?

Ainda em choque com a reação de Marcelo, Priscila levou um certo tempo para assimilar o que acabara de acontecer, só então vira para Marcelo e diz:
─ Marcelo, você acabou de colocar mais um coisa entre nós, e agora entendi que a distância que existe entre nós dois nesse momento já te impede de me escutar, minhas palavras se perdem ao vento ou são esmagadas pelo seu ciúme. 

Nesse momento ela mostra seu celular para que ele leia a mensagem que dizia: “Hoje é dia de balada! Não fique em casa sozinho, entre agora na nossa sala TIM Paquera e descole o seu par. Digite #2345 e comece a paquerar!”

Ao notar que Marcelo nem mesmo ao ler a mensagem deixaria seu orgulho de lado e não querendo mais continuar aquela discussão, Priscila diz:
─ Talvez você esteja certo ao falar que deixei a porta encostada, talvez minhas ações alimentem ainda algum sentimento nele, mas isso não muda o fato de que estou aqui com você e que continuo dizendo que te amo, mas isso parece não bastar e como não quero destruir os momentos que vivemos juntos, vou deixar você com seus pensamentos e vou para casa. Acho que precisamos de um tempo para pensar.

Priscila olhando nos olhos de Marcelo leva as mãos à cabeça colocando os cabelos por detrás das orelhas, lentamente pega sua bolsa e coloca no ombro, se aproxima de Marcelo e lhe dá um beijo carinhoso no rosto, levanta-se e diz – estou indo...

Marcelo apenas diz: ─ Entenda que não posso mais viver com a sombra de seu ex-namorado e também não quero brigar com você ─ e a deixa ir, acompanhando os passos de Priscila até ela desaparecer, misturada entre as outras pessoas que andavam pela rua.

Marcelo fica ali, sentado no banco da praça, agora fazia parte daquele grupo de homens solitários pensando em seus problemas.

Algum tempo depois...

Marcelo estava em seu apartamento sentado assistindo televisão, quando toca a campainha. Levanta-se e caminha até a porta, intrigado, pois não esperava ninguém. Ao abrir, só encontrou um saco pequeno do Bobs no chão junto à porta, colocou a cabeça para fora, olhou para os dois lados do corredor, mas não viu ninguém. Abaixou para pegar o saco e ao abrir viu que dentro tinha um copo de milk-shake de ovomaltine ─ o seu predileto.  Priscila veio imediatamente a sua cabeça fazendo seu coração acelerar, imediatamente saiu porta a fora na esperança de encontrá-la, mas em vão, apenas encontrou os corredores vazios.

Voltou para seu apartamento fechando a porta lentamente tentando entender a razão daquele gesto, se dirigiu à cozinha, tirou o milk-shake do saco e colocou sobre a mesa notando que dentro não havia o canudo. Puxou uma cadeira e sentou. Ficou ali parado por alguns minutos olhando para o solitário milk-shake sem entender nada. Então lembrou que na gaveta da cozinha tinha uns canudinhos listrados de vermelho, foi lá e pegou um, colocou através do furo na tampa e começou a tomar, mas o canudinho era muito fino, tentou, tentou e tentou até suas bochechas ficarem doloridas. Já meio irritado pensou ─ ela fez isso de propósito, tirou o canudo só pra me irritar, então se lembrou do dia em que compraram aqueles canudinhos, tinham combinado de passar uma noite romântica juntos, regada a coquetéis com guarda-chuvinhas e músicas lentas a luz de velas.

Rapidamente tirou aquela lembrança da cabeça levantou e pegou uma colher, retirou a tampa do copo e começou a tomar o milk-shake com aquele ar de “sou mais esperto que você”. A cada colherada, uma lembrança dos momentos que viveram juntos preenchia seus pensamentos. Lembrou do cheiro doce do perfume dela ao entrar no seu carro no primeiro encontro, da vez em que suas mãos se encontraram pela primeira vez e não se largaram até que o primeiro beijo os tomasse em paixão. Lembrou-se das pernas entrelaçadas na primeira vez que foram ao teatro, do beijo dado no estacionamento enquanto a música “welcome to my life” se tornava a primeira trilha sonora de suas vidas e recordou-se de muitas outras canções que o destino sempre fez de questão colocar como pano de fundo para aqueles momentos especiais criados unicamente para eles. Já tomado pela emoção e pela saudade, lembrou-se das taças de vinho tomadas à frente da lareira incendiada as custas de muitas revistas velhas. Lembrou de todas as manhãs que ao despertar encontrou o corpo sempre quente de Priscila colado ao seu, dos beijos sempre recheados de paixão, desejos e sonhos, das noites de amor que nunca caíram na rotina de um longo relacionamento. Marcelo agora já não tomava mais o milk-shake, tinha o olhar fixo, hipnotizado. Começou a lembrar dos últimos momentos que passaram juntos. Detalhes que antes lhe pareciam bobos, agora tinham um valor enorme, eram do tamanho da sua saudade. Lembrou-se do sorriso cotidiano e do beijo sincero que recebia enquanto Priscila tirava sua gravata ao chegar do trabalho; da noite que passaram horas rolando no chão tirando fotos um do outro nos mais diversos ângulos e posições, enamorados, apaixonados, retratando aquele amor como dois adolescentes. Então numa fração de segundo se viu na praça, no banco com Priscila enquanto dividiam o milk-shake de ovomaltine e começou a perceber olhando para colher em sua mão que o milk-shake tomado com a colher ou com canudinho vermelho listrado pode até ter o mesmo sabor, mas não tem a mesma graça do que quando tomado com aquele canudo, então pensou no que Priscila tinha lhe dito no banco da praça e com um sorriso tímido e emocionado falou baixinho ─ o que seria do milk-shake de ovomaltine sem o canudo?
Toca a campainha! Marcelo levanta com os olhos cheios de lágrimas e caminha até a porta e ao abrir enxerga Priscila com um sorriso aberto segurando o canudo, ele fica ali, parado, estático, em silêncio olhando pra ela por eternos segundos e então diz:
─ O que seria da minha vida sem o seu sorriso?

Amor com Ovomaltine Reviewed by Ricardo Leão on 6:14 PM Rating: 5

2 comentários:

  1. muito bonita essa matèria Ricardo, realmente tem pessoas que sò dâo valor as coisas ou as pessoas quando perdem, muitas disfazem dos sentimentos das pessoas quando elas expoem o que sentem por alguèm acha que è brincadeira quando na verdade a pessoa termina sofrendo, esse Marcelo deveria terminar sò, em um banco de praça ePriscila foi muito idiota depois de tudo ter voltado prà ele, esse èo meu comentàrio.

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