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Crônicas

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Sombrinhas automáticas

















Água, muita água mesmo, água suficiente para lavar todos os pecados do mundo, encher sei lá quantas piscinas olímpicas. Foi tanta água que caiu dos céus nestes últimos dias, que transformaram a sempre colorida paisagem carioca em uma fotografia em tons de cinza. Mas hoje um raio de sol apareceu na parede do buraco, então como boa tartaruga que sou resolvi colocar o pescoço para fora do casco e ver como estava o mundo e aproveitar para comprar umas coisinhas no supermercado. A minha primeira impressão foi de estar naquele filme “O dia seguinte”, as ruas ainda molhadas com grandes poças nas esquinas, várias folhas voando aleatoriamente impulsionadas pelo vento frio, sudoeste, galhos de árvores ainda espalhados pelas calçadas de Ipanema, algumas letras do titulo dos filmes em cartaz arrancadas do cinema impossibilitando sua leitura. As pessoas atordoadas sem saber o que vestir andavam em seus passos largos e cotidianos atrás de seus destinos, como se a vida estivesse normal dentro de um cenário urbano, nublado, cinzento e esverdeado.

Ao entrar no supermercado me deparei com uma fila enorme, a maioria de velhinhos desnorteados comprando mantimentos à espera de Noé e sua arca, pois o dilúvio já havia começado. A fila é a pior invenção do século e uma fila cheia de velhinhos? Eu nem quis tentar essa nova experiência. Plano B - então vamos andando até o próximo supermercado. Na esquina encontro duas moçoilas comentando sobre as enchentes enquanto degustavam seus lanches.

– Isso tudo é culpa dos governantes!
- Claro que sim, só se mobilizam quando a desgraça já aconteceu.
- Nem sei quantas horas vou levar pra chegar em casa hoje.
- Nem me fale amiga, meu bofe tá me esperando, já tem uma semana que não compareço e hoje com ou sem chuva eu não escapo.
- Ninguém merece viu! Ele é um chato, não sei por que está com ele.

Enquanto me afastava, notei que o papelzinho que limpara a sua boca caía lentamente no chão, juntando-se a vários outros que por ali estavam, acreditando sim, que a culpa é apenas dos governantes.

Uma voz se destacava entre os murmúrios da multidão - “Sombrinhas automáticas; lupas para leitura como ou sem luz, comprem!!!” Logo minha atenção se fixou naquele homem de meia idade, pouca estatura e com olhos  bem arregalados, por alguns segundos parei para observar aquela figura ímpar que se destacava no meio de tantos “normais”. Olhei para o céu; limpo, azul com poucas nuvens e pensei “Que maluco! Vender sombrinhas com esse tempo”. Alguns metros depois, estava entrando no supermercado e adivinhem o que foi que vi? Mais velhinhos em filas enormes. Parecia que todo o bairro havia resolvido ir ao mercado na mesma hora que eu. Fiquei ali, perplexo por três minutos olhando e me perguntando se poderia ficar mais algumas horas sem minha coca-zero e resolvi voltar pra casa. 

Já notaram que odeio filas. Já foram a Florianópolis na virada do ano? Quem foi vai entender melhor meu trauma com filas, se você pegar o caminho errado, na hora errada, é capaz de passar suas férias inteiras na fila dentro do seu carro.

Pois então, quando coloquei o pé na rua saindo do supermercado, começo a sentir inacreditáveis pingos de chuva. Meio atordoado voltando pra casa, re-encontro o homem das sombrinhas automáticas, feliz, vendendo uma das várias que carregava no braço. Naquele cenário caótico construído pela maior chuva já vista na cidade do Rio de Janeiro, aquele homem simples, totalmente fora do contexto aparecia agora como um profeta, capaz de adivinhar o tempo e as necessidades das pessoas. Ao lado dele não pude deixar de reparar em um mendigo segurando uma tampa de lata de lixo como se fosse uma bandeja, com duas moedas dentro, seguia pedindo esmolas aos que passavam e claro era ignorado por muitos ou motivo de chacota para alguns.

Mas então para que servem as lupas, com ou sem luz para leitura do nosso vendedor de sombrinhas automáticas? Talvez para nos fazer enxergar melhor como nossos velhinhos são tratados nos dias de hoje, talvez para que possamos aumentar a nossa visão para as pessoas que ignoramos nas ruas, talvez para nos fazer notar os verdadeiros detalhes que importam em um relacionamento, talvez para entender que todos deveriam enxergar os sinais da natureza e que mesmo um simples papelzinho largado no chão vai virar lixo e que esse lixo vai se acumular até formar uma montanha e que pessoas por completa falta de opção construirão sua casa em cima deste lixão. E que em um dia de chuva qualquer, um morro do bumba virá abaixo, destruindo não só casas, mas enterrando sonhos, famílias e matando crianças. Então ao invés de comprarmos sombrinhas automáticas que resolverão nossos problemas de momento, o grande produto de nosso profeta urbano, são as lupas! Comprem lupas! Lupas com ou sem luz!
Sombrinhas automáticas Reviewed by Ricardo Leão on 11:30 AM Rating: 5

3 comentários:

  1. profundo...gostei do texto,ainda com aquela pitada de humor..

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  2. Um texto que nos leva a refletir, sobre nossas atitudes ou quem sabe a falta delas.
    Parabéns! Gostei muito!
    Sol

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