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Crônicas

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Manual do amor















Amor à primeira vista, amor platônico, almas gêmeas, destino, seja lá o que chamem, mas aconteceu, fui flechado pelo cupido, nossos olhares se cruzaram em um dia comum como qualquer outro, minha primeira impressão foi de incredibilidade, pensei “não pode ser comigo”, dei aquela olhadinha para trás pelos ombros para checar se era comigo mesmo, e não pagar o maior mico, mas ela continuava lá me olhando e sorrindo pra mim, toda acesa, uau! Que sensação maravilhosa aquela! Estava apaixonado e na minha cabeça tinha a certeza que não poderia mais passar nenhum dia sem ela e ela sem mim. As mãos suando muito, aquele frio na barriga, e eu tomando coragem, nessas horas ser tímido é a pior coisa do mundo, me odiava por isso, mas a paixão era maior que a timidez, então eu fui até lá e falei. “Amigo, não importa o valor, eu quero comprar esta televisão de lcd de quarenta e sete polegadas”.
Ansiedade total, eu não consegui dormir direito à noite só pensando no próximo encontro, “Meu Deus a que horas vão entregar minha televisão?” Enquanto não chegava, fiquei pensando sobre os caminhos do amor, tudo que fiz foi tomar uma rota diferente da minha habitual volta para minha casa, e em uma esquina qualquer da vida, em um dia ordinário, comum, lá estava ela no meio de tantas outras imagens, de tantos outros tamanhos, modelos, cores e valores, mas eu sabia, era aquela e não poderia ser outra. Perguntei-me de onde vinha essa certeza? De repente sinto meu coração acelerar, bater mais forte, um sorriso discreto desponta em meu rosto, pronto ali estava à resposta para minha pergunta.
Toca o interfone, o porteiro avisando que ela chegou. Euforia total! Eu não cabia nos meus sapatos, os segundos se tornaram horas, abri a porta de casa, olhei o corredor inúmeras vezes na esperança de vê-la chegar, sorriso estampado na cara, enfim meu amor chegou!  “Uau! Como você é grande amor”, aqui dentro do meu mundinho você parece maior ainda, linda, não conseguia tirar os olhos dela, passamos a noite juntos totalmente ligados um no outro, o mundo não parecia existir, que noite divertida aquela, que intimidade assustadora, ela parecia me mostrar um mundo que eu até então não conhecia, um mundo mais colorido. Um olhar repentino pela janela e o dia já estava lá fora nos acordando para a realidade. Essa é a melhor fase do amor, onde você literalmente anda nas nuvens, não se importa com o clima lá fora, até dia chuvoso é lindo e vira pretexto, desculpa para um pão de queijo a dois debaixo do edredom, não importa quais dificuldades ou problemas que você terá no seu dia o simples fato de que você vai encontrar o seu amor no fim do dia é suficiente para você literalmente flutuar.
Tudo caminhava bem, até que o sinal dos tempos bate à minha porta, em uma noite de segunda-feira enquanto zapeava com meu amor, a curiosidade aguçou meus sentidos, eu tinha o controle nas mãos, e ali estavam inúmeros outros botões os quais eu jamais tinha apertado e não fazia a menor ideia do que eles eram capazes de fazer, logo peguei o manual do meu amor para entender quais seriam as conseqüências quando aqueles botões fossem apertados. Apertei o primeiro botão! “Uau! Que legal! Meu amor fala inglês”, depois outro e mais outro e comecei a notar as reações de meu amor. Inevitavelmente comecei a emitir um julgamento para cada botão apertado, uns eu achava simpáticos, outros completamente desnecessários, “opa! Zoom! Legal esse! Será que ao apertar este botão consigo enxergar aqueles detalhes de meu amor que me passam despercebidos?”, nossa adorei esse botão de “mudo”, assim posso apertar e ela nem vai saber que não estou escutando nada, principalmente quando ela entra em horário político e começa a discursar. Gente o que é isso aqui?! Que barato! Eu posso programar meu amor! Que maravilha! Demorei uma semana para poder entender aquela complexa combinação de botões e para que serviam, mas o esforço valeu à pena, estava funcionando. Mas o melhor de todos foi a descoberta do Closed Caption, ao apertar eu conseguia ver a tradução, as entrelinhas de tudo que meu amor queria me dizer. Virei a última página do manual e, por fim, eu tinha o controle total!
Os dias a seguir já não foram mais os mesmos, de repente todas aquelas funções foram perdendo a graça, outras eram muito chatas, não me importava com quantas línguas meu amor falava. O zoom me parecia uma invasão de privacidade e, toda vez que alguma programação falhava, eu ficava muito frustrado, pois parecia que todo meu esforço tinha sido em vão. E a pior se tornou o Closed Caption, porque, por inúmeras vezes, mesmo assistindo à imagem, ali, real, bem na minha frente, eu sempre estava procurando ler as letrinhas abaixo, procurando algum erro. Comecei a questionar se aquelas letrinhas estavam falando a verdade e quando dei por mim aquilo tinha se tornado um hábito diário.
Não sei por que temos a tendência a complicar o que é simples, e vamos agregando valores e conceitos ao que já funciona bem. Quando me apaixonei, tudo que precisava era apertar os botões básicos e tudo funcionava perfeitamente; a necessidade de ter o controle sobre tudo quase me cegou, mas descobri em tempo que não precisava de todos aqueles botões para viver meu amor, e que manuais de amor devem ficar juntos com os outros perdidos no fundo de uma gaveta. Joguei meu controle fora e comprei outro com o menor número de funções possíveis. Procuro agora manter as coisas o mais simples possível. E que possamos ter muitas emoções juntos regadas a vinho e pão de queijo.
Ah, se vocês acham que me esqueci do botão “mudo”, se enganaram!  Este eu ainda dou umas apertadinhas de vez em quando, especialmente na tpm.
Manual do amor Reviewed by Ricardo Leão on 4:59 PM Rating: 5

5 comentários:

  1. Ricardo,

    Adorei seu texto. Você escreve com leveza e Graça.
    Parece que está em "estado de Graça ao escrever", é isto...GRAÇA...

    As palavras fluem...o humor inteligente e rapidez de raciocínio.
    Realmente...vamos manter as coisas o mais simples possível. "E que possamos ter muitas emoções juntos regadas a vinho e pão de queijo."

    Ana Paula

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  2. Ricardo,
    Vc está se superando!! Muito bom o texto. Confesso que qdo li o título pensei: ele se apixonou, perdi meu amigo de bate papo, rs rs, mas ufa, era apenas um controle remoto e uma programação e eu, uffaa de novo, não possuo esse acessorio nem essa função.
    Fernanda

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  3. Ricardo,
    Nem sempre se pode ter controle total sobre objetos e pessoas,principalmente quando não se faz por onde cultivar o funcionamento regular. Quanto a TPM é complicado mesmo! O efeito se agrava ao perceber rejeição, falta de apreço, desdém etc. Não ha controle remoto do mundo que der jeito! É melhor esperar o efeito passar.

    Sheyla Régia

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  4. emoções regadas principalmente com pão de queijo, hum...q delícia.rsrsrs
    Beijão.
    Lu

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