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Crônicas

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A Maçã Encantada













O Buraco tem dessas coisas, quando preciso saber como o tempo está lá fora, a única solução é meter o cabeção janela a fora e olhar pra cima, tenho que interpretar o que aquele quadrado de céu quer dizer, é um exercício de pajelança. Nada muito complicado pra mim, pois minhas origens amazônicas facilitam a leitura do meu quadrado de céu, mas hoje ao fazer minha leitura matinal do tempo, me deparei com uma maçã que foi jogada por um destes bem educados moradores da zona sul. O que me chamou atenção foi que a maçã estava comida apenas pela metade, acho que um bom mal educado comeria toda a maçã e jogaria apenas o miolo pela janela. Logo me perguntei qual seria a razão daquela pobre maçã ter sido rejeitada. Antes mesmo do meu sagrado café preto matinal já me peguei pulando pela janela para satisfazer a minha primeira indagação, estaria ela estragada? E a resposta era aquela que fez do meu normalmente pacato domingo, um domingo atípico. Não, ela não estava estragada, e parecia suculenta! Recoloquei a maçã no mesmo lugar e retornei para o apartamento. Agora já com meu café nas mãos, me postei em frente à janela e fiquei olhando para a maçã tentando imaginar que história se escondia por trás daquela cena. Terminei meu café e para meu descontentamento nada me passava pela cabeça, de certa maneira aquela maçã bloqueava meus pensamentos, existia uma espécie de magia envolvida ali, teria a Branca de Neve mudado para o buraco?
O Domingo me reservava algumas tarefas que me prenderiam em casa durante boa parte do dia e sentado na frente do computador, sempre espichava os olhos para fora da janela e lá estava ela - a maçã , olhando para mim e aquela frase sempre me martelando na cabeça, “decifra-me ou te devorarei”, mas sempre em vão. A idéia de que bruxas realmente existem e que aquela maçã estava encantada pareciam cada vez mais real. As horas passavam e aquele enigma não parecia ter fim, o trabalho já não rendia, me encontrava obcecado pela resposta a minha pergunta. Ao final da tarde, sem almoçar, sem perspectiva alguma, resolvi parar tudo e sair de casa, me afastar o máximo possível daquela maçã.
A lagoa Rodrigo de Freitas no Rio é um lugar especial e naquele domingo era o meu destino. Olhadinha básica no meu quadrado de céu, “Hummmm, nublado! E como mais cedo alguns pingos de chuva molharam o fundo do buraco, o traje seria calça jeans, camiseta e chinelo. Ao caminhar pelos longos corredores do buraco em meu caminho para rua, passam por mim, acredito eu, crianças, mas aquela altura poderiam ser os sete anões, sei lá! Enfim, a luz do Sol! O céu azul! Que fim de tarde maravilhoso! Que dia lindo! Epa! para tudo! E aquelas nuvens? E os pingos no fundo do buraco? Logo reparei que todos na rua estavam vestidos de bermudas e camisetas, muitos até em traje de praia e eu o único de calça jeans naquele ensolarado fim de tarde. Pensei na maçã, na bruxa, nos sete anões e resolvi seguir adiante em meu passeio dominical estrada a fora, pelas ruas quase desertas de Ipanema.
Enfim, cheguei a meu destino, a calma, tranquila e familiar dominical lagoa. Parei em um quiosque junto aos pedalinhos, pedi uma cerveja e uma porção de pastel de queijo a uma não muito simpática nem prestativa garçonete e comecei a observar os transeuntes ao meu redor. Casais andando de bicicletas com suas pedaladas perfeitamente sincronizadas, os cisnes brancos flutuando pelas águas da lagoa levando em seu corpo os pais com seus filhos, se divertindo ao jogar migalhas de pão para os peixinhos, os corredores solitários com seus mp3 amarrados nos braços, embalados pela trilha sonora de suas vidas. O Sol se escondia por detrás das sinuosas montanhas dessa cidade maravilhosa, aquela suave e refrescante brisa anunciava a chegada da noite, enfim minha calça jeans combinava com o ambiente, estava na hora de voltar para o buraco.
Às vezes, gosto de pegar caminhos diferentes na volta pra casa e em minha rota alternativa reparei naquele novo fast food que vendia Kebab, “hummm! Delícia! Eu quero!”  Mesmo tendo devorado os pastéis na lagoa não resisti à tentação. Fiz meu pedido ao garçom. “ Quero um Kebab de Cordeiro e uma Coca Zero com gelo e limão por favor”, então ele me perguntou qual o tamanho do Kebab? Respondi,  “ O grande por favor”. Não sei por que nós homens temos que mostrar nossa masculinidade até na hora de pedir um kebab, tem que ser o maior! Eu nem tava com tanta fome assim. Bem, sem comentários, estava delicioso, devorei o kebab rapidamente. Após pagar a conta segui meu caminho, até que em uma esquina eu me deparo com a tentação das tentações, uma coxinha de galinha de uma padaria que eu jamais tinha provado. ( Vide a saga da Coxinha no Blog). A garçonete me disse que precisava pagar no caixa e depois pegar a coxinha. Na fila a minha frente apenas uma velhinha contando lentamente todos os centavos tirados de sua pequena bolsa de moedas, uma a uma ela pegava com aquela mão tremida pela idade, cada moedinha, levava até próximo a seus olhos pra conferir o valor e só então colocava em cima do caixa. Eu resisti bravamente por três minutos esperando a minha vez, até que me dei conta que a coxinha poderia ficar para outro dia, pensei “olha o pecado da gula” e segui adiante.
Sabe aquele gostinho que fica quando você deseja algo e não come? Pois então, no meu caminho pra casa, fiquei pensando na coxinha, desejando, precisava saciar meu desejo, foi quando avistei outra tentação, milkshake de ovomaltine, adooooooro!, Logo entrei e me dirigi ao caixa e uma muito bonita e simpática atendente, me faz aquela pergunta com um sorriso estampado em seu rosto angelical, “De que tamanho?”, Putz! Nem preciso dizer o que respondi né?  Então, lá fui eu com meu enorme milkshake em direção a minha casa, arrumando espaço sei lá onde, mas ali era uma questão de honra! Ninguém podia se meter, era eu contra aquele milkshake e eu iria vencer!  Na ultima lata de lixo do último poste antes de entrar no meu buraco eu depositei aquele copo vazio e entrei me sentindo vitorioso.
A palavra é empanzinado, eu não aguentava nem respirar, enfim entrei no meu buraco e sentei na frente do meu computador, quase imóvel, estático, olhando pela janela, percebi que estava sendo espiado, era  ela, a maçã comida pela metade e abandonada a própria sorte. Mas algo tinha mudado, eu passara o dia inteiro tentando descobrir a razão por que alguém comeria uma maçã e jogaria fora pela metade e agora entendi que aquilo era só uma maçã e que do jeito que estava cheio de tanto comer, provavelmente daria o mesmo fim  aquela pobre maçã. Claro que jogaria na lata de lixo! Às vezes ficamos fantasiando com algo que aos olhos ou ao coração podem nos parecer ou soar estranhos, nessa hora, de um tempo, se afaste, mude o foco por algum tempo, se aproxime do real, e quando voltar sua atenção para a questão vai ver que aquilo era apenas uma maçã mordida.

A Maçã Encantada Reviewed by Ricardo Leão on 9:57 PM Rating: 5

2 comentários:

  1. Adorei, Ricardo.
    A gente passeia com você no relato. Agora, rapaz, a pergunta que não quer calar... você tinha almoçado, homem??? risos
    Bjs,
    F.

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  2. Nada como mudar o foco, repensar, tomar novos ares... pra depois chegar a conclusão de que projetamos, articulamos e fazemos previsões quando na verdade devemos apenas deixar acontecer.
    Cláudia

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